Olha lá, o amor. No farol, sobre o alaranjado tardio dos prédios, por trás do jornal que resiste aos domingos, nas rodas gastas que costuram a ciclovia.

Olha lá, o amor, passando rapidinho. E você nem vê. Até firmar as vistas já era. Já virou outra coisa. Já se confundiu, já modificou as ideias, as palavras, desandou a receita. O elemento químico mais instável que existe.

Olha lá, o amor, correndo quase infantil e quanto mais idade e menos fôlego você tiver, mais difícil será alcançá-lo. Mas corra assim mesmo, sem fôlego, sem chance, esbaforido.

Eu tenho um dó tremendo, um apego miudinho dos amores que sei que deixei passar. Quase tão mais dos amores que vivi, mas se acabaram. Perder de vista é pior do que perder. Sempre será.

Eu queria que você pudesse conhecer todas as minhas manias matinais, se cansasse das minhas piadas repetidas, entendesse porque eu admiro tanto meus pais, provasse o sal da comida em todas as colheres da casa.

Me mostrasse seus medos mais irracionais, me fizesse teu espectador mais atento, me botasse numa caça aos seus chinelos sem pares, me beijasse como quem nunca mais vai. Mesmo que depois se fosse.

E eu sei o quanto é irracional pensar isso de um vulto, de um quase, de um semi-talvez-gostar. Mas para por um segundo pra pensar no tanto que a gente poderia ter sido.

Olha lá, o amor. E você olha, mas nem vê. Tô falando de fé. De acreditar tatilmente no invisível. Mas também do desencontrar, que é o verbo mais triste que já conjugaram. Eu desencontro, tu desencontras, nos desencontramos.

Se você ler isso, sinta-se amado. Não precisa me dar nada de volta. Só sinta-se amado por um instante. Não gosto da ideia de desperdiçar um sentimento que realmente existiu.

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Diego Engenho Novo
Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

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