Esse é um apelo a uma velha amiga, uma velha conhecida. Aquela que foi silenciada pelas mil e uma maneiras de matar o tempo no mundo moderno. Mil e uma maneiras de fugir. Mil e uma maneiras de silenciar o burburinho de nossa própria mente. Ditarei primeiro um guia de como escapar dela: Discuta tópicos intermináveis. Veja supostas felicidades recortadas e coladas. Passe de um lado para o outro num baile de máscaras em que todos medem pela máscara mais atraente criadas nas fotos. Não fique parado, não fique parado! Sempre coloque pequenas importâncias como prioridade para que ela não se sente ao seu lado. Beba, fume, faça amor, dance, escute música, trabalhe, mergulhe em qualquer vício até que seu pensamento esteja anestesiado. Assim ela não se sentará ao seu lado. Cuidado! De noite ela vem mais forte. Parece até que vem munida de Morte. Ela vem de mãos dadas com o silêncio noturno, em que as mensagens já não estão mais apitando sem parar e não existe mais nenhuma notificação para te medicar. Mas não se preocupe. Não se preocupe! Antes que ela te pinte em melancolia, dá pra tomar umazinhas, dá pra usar um pacote de álcool e gritaria pra te dar uma falsa calmaria. Afinal é Happy Hour! Numa hora tão feliz, ela não pode vir. Não deve.

Mas, essa hora acaba e enfim você volta para casa. Na sua cama existe uma piscina de silêncio e você lembra que nadar ali só te traz a sensação de isolamento. E lá está ela. Ela está pronta. Mas você não. Então pegue o celular, coloque na palma da sua mão, continue seu ciclo vicioso (não esqueça de esboçar reações pra fingir que é humano), até que o seu cansaço ganhe de nervoso. Não pense, não olhe, não fale, somente consuma e durma.

Este é seu guia para estar eternamente fugindo. Depois de te guiar nessa rotina robótica, entendo que aqui começa meu apelo. Agora pare. Respire e sinta. Deixe que ela sente ao seu lado. Deixe que ela tire suas falsas pretensões. Que ela entre em você e te faça vazio. Que ela tire seu fôlego, mas simplesmente para te dar algo novo. Deixe que ela te mostre a sua ferida. Deixe que ela te faça sangrar, pois com o tempo tudo cicatriza. Deixa ela te invadir. Abrace-a.

Deixa-a mudar de forma. Transmutar de ansiedade para tristeza. De tristeza para raiva. De raiva para o perdão. E depois que ela te mostrar mil e uma maneiras de sofrer, ela te mostrará infinitas maneiras de se viver. Afinal, assim como sua vida é breve, sua alma há de ser leve. Ela te dirá para não levar pesos por aí, porque para caminhar é preciso estar de bolsos vazios para poder sorrir. Então você vai perceber que a voz dela te soa familiar, que reanima algo em seu peito. Que te faz viajar no tempo, navegando em memórias pintadas no fundo de sua mente. Agora você já deve ter percebido. A voz é sua.

A solidão não é sua. A solidão é você. Fugir de sua solidão é fugir de si. Numa cultura da fuga do eu, na qual podemos fugir em qualquer momento e em qualquer lugar, nos resta fazer as pazes com nós mesmos. Paremos de correr de um lado para o outro, de sermos esmagados por uma pressa invisível, por uma sensação de atraso fantasmagórica, pela indiferença e pela competição entre todos.

Sejamos humanos. Sejamos solidão. A voz que nos foi silenciada por toda essa vida frenética deve ser reanimada! Para que, finalmente, quando formos mergulhar em nosso silêncio, em meio a todo o sofrimento que essa vida pode nos proporcionar, a única voz que possamos realmente escutar no final do dia, seja a da solidão. A nossa voz. Escutemos a sinfonia que toca no casamento entre o silêncio e nossa voz. Enquanto abraçamos nossa alma, fazemos ressoar palavras em nosso peito: “Calma, vai dar tudo certo.” E agora, você já deve ter percebido que no vazio interno que a solidão te criava, você encontrará seu próprio lar. Sentindo na sua pele que a voz que melhor te consolará é aquela que seguindo o guia foi silenciada. A sua.

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Mike Akama Mazurek
Mike A. Mazurek, formado em Comunicação e Mestrando em Comunicação e Práticas de Consumo, futuro professor e escritor pelo prazer da vida.

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