Tive o primeiro namorado aos 14 anos. A maioria das minhas amigas já tinha beijado na boca e eu tinha curiosidade de saber como era.

Ele tinha 23 anos e, definitivamente, não tinha nada, nada a ver comigo. Mas, movida pela curiosidade e pelo status de ser uma pirralha de 14 anos tendo um cara de 23 interessado, parti pro primeiro beijo sem saber que ali eu estava inaugurando um relacionamento, um namoro.

Quando me toquei que estava “comprometida”, fiquei desapontada. Por mim não precisaria de nada mais, afinal de contas, eu já havia provado o que eu queria.

[E acho desnecessário dizer que eu usava aparelho nos dentes, com borrachinhas verdes e amarelas no maxilar superior e azuis no inferior… É, o cara deveria estar mesmo muito, muito interessado… Ou seria desesperado?!]

Enfim, quando a ficha de que eu tinha um proprietário caiu [o sujeito era insuportavelmente ciumento], eu subitamente me tornei uma menina muito, muito estudiosa, de modo que, a qualquer hora do dia ou da noite em que ele me ligava ou aparecia na minha casa, minha justificativa para não poder conversar ou sair era irrefutável e louvável: meus estudos. Acima de tudo [e de qualquer suspeita].

Depois que eu me justificava por telefone ou pessoalmente, voltava a ouvir música, assistir televisão ou a fazer nada. Simplesmente não queria me doar a ele. Ele não sabia que eu só queria que ele fizesse parte de uma experiência pessoal e não que fizesse parte da minha vida!

Nosso “namoro” durou menos de um mês. Foram os dias mais dedicados aos estudos de toda a minha vida! Até que criei coragem e terminei. Era muita cobrança, muito ciúme, muita expectativa sobre mim, que só queria um beijo.

Muitos anos se passaram. De vez em quando eu passava por ele na rua, a gente se cumprimentava minimamente. Até que um dia ele me parou e me fez aquelas perguntinhas típicas dos sem-assunto, tipo “como vai tua mãe”, blablabla… E a pergunta mais enfática: “você continua super estudiosa?!” … Eu ri e achei a pergunta tão descabida porque, apesar de eu sempre adorar estudar, nunca fui es-tu-di-o-sa. Daí eu ri e respondi com cara de é-comigo-mesmo?! [sabe como é, mentira pode até andar de salto alto, mas tem perna curta].

Minutos depois eu me dei conta da pergunta dele, mas já estava longe.

Ele me admirava por acreditar que eu era realmente muito dedicada aos estudos ao ponto de não ter tempo pra gente. Ele não sabia que era puro desinteresse. Mas era. Puro desinteresse. Puro. Destilado.

Aí hoje tem um cidadão na tua vida que nunca te liga, nunca te chama inbox, não te manda SMS, não te procura e, sempre que você faz tudo isso, ele se justifica, pede mil perdões por estar afastado, põe a culpa nos estudos, no trabalho, nos compromissos sociais. Você acredita, morre de compaixão, se oferece pra ajudar, se coloca à disposição…

Infelizmente há muita gente usando outras gentes nas suas experiências pessoais. É muito ego manter uma pessoa aprisionada a outra por uma esperança que nunca vai deixar de ser es-pe-ran-ça, nada mais que isso. É maldade, sadismo, covardia. É desinteresse mesmo. Puro. Puro e destilado.

Quem quer, não dá desculpa. Quem quer, realiza. Até as meninas de 14 anos já sabem disso. Talvez você ainda não tenha 14 anos, mas paciência! Um dia você aprende…

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Ludmila Clio
Ludmila Clio nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES, em 22 de Março de 1981.Começou a escrever para sua gaveta, como a maioria dos escritores, mas furtivamente, mostrando seus escritos para amigos e professores, foi encorajada a romper com a gaveta e publicar-se. O estopim se deu em 2004, quando venceu pela primeira vez um concurso nacional de poesias, realizado no Paraná. Graduada em História e autora de 02 livros de poesia, está prestes a lançar seu primeiro livro em prosa. Mora atualmente em Campinas/SP com sua filha adolescente.

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