Eu me lembro do dia em que te conheci. Eu ouvi chamarem seu nome e levantei a cabeça para saber quem você era.

Não demorou muito e nós nos tornamos amigos. O ombro um do outro, mas eu esqueci de reparar que enquanto eu era para ti firmeza, muitas vezes para mim você era ausência. Enquanto eu te contava todos os meus planos, você fazia os seus sozinho, sem mim.

Mas eu gostava de você. Eu te queria por perto. Sua voz me acalmava e me dava a falsa sensação de que eu não estava só.

Quando você não quis mais ser apenas um amigo e jogou pétalas aos meus pés, eu achei que estava no céu. Que o mundo seria nosso, mas você nunca estava realmente ali. Ao meu lado sempre existia um lugar vazio. Suas palavras eram lindas, mas seus atos não faziam jus a elas. Seu desejo por mim parecia imenso, mas você desejava qualquer uma que pudesse conquistar, enganar e usar.

Eu entreguei para você todas as minhas chaves e você entrou e saiu da minha vida quando quis, sem cerimônia. Você foi e voltou, inúmeras vezes, sem se desculpar.

E todas as vezes em que você voltou, o fez como se tivesse partido há um dia e me abraçou com tanto carinho que me fez esquecer do longo tempo da sua ausência. Na última delas você me tomou pra si e eu, sem resistir, entreguei meu coração embrulhado para você.

Quando a noite foi embora e meus olhos se abriram, meu coração bateu apertado. É que você de madrugada, me segurando entre seus braços, me contou quem você realmente era. Disse que adorava fazer as pessoas se sentirem especiais para depois sumir. Que você fingia ouvir e compreender, mas que na realidade, não entendia nada de sentimentos. Que você nunca sentira paixão ou amor por alguém. Naquele instante eu entendi que você não tinha ideia do estrago que causava na vida das pessoas e que não dava a mínima para isso.

Eu engoli cada palavra sua como quem engole uma comida estragada. Saber que você era um bajulador, um conquistador, um sádico quebrou meu coração. Então naquela manhã eu acordei com minhas asas cerradas.

Eu cai das nuvens e me vi jogada em um inferno no qual o pior tinha o seu rosto. Eu tive febre. Eu chorei feito louca. Eu me odiei por ter me enganado tanto. Por ter sido tão cega e ter te amado. Eu sofri bastante, mas depois de muita dor eu me levantei e troquei todas as fechaduras. Depois que você cortou as minhas asas, eu aprendi a andar com meus próprios pés.

E, cada vez que eu chorei pela porcaria de ser humano que você mostrou ser, eu te amei menos. Eu aprendi a ir, mesmo com o coração quebrado e com os pés descalços. Eu aprendi a seguir sem a tua ilusão. Livre de qualquer expectativa tola. Pronta para receber a verdade da vida. Pronta para fazer os meus próprios caminhos e encontrar conforto no que for realmente amor.

Eu te perdoo, mas nesse meu novo caminho não há espaço para você. Eu aprendi a ver beleza no chão que piso, a agradecer a chance de recomeçar. As nuvens não me pertencem mais. Agora eu sou inteira desse mundo e vou fazê-lo perfeito para mim, sem você.

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Atribuição da imagem: pixabay.com – CC0 Public Domain

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que as palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.

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