“Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.” *

Vivi a lúdica década de noventa quando adolescente. Aqueles anos tiveram símbolos especiais e era mais tardio amadurecer com tantos ídolos da infância persistindo. Xuxa, Paquitas, Trapalhões, Angélica, Mara Maravilha, enfim. Além disso, colecionava revistas voltadas para meninas, como Querida e Carícia. Bem, só aí já está uma época à parte. Essas revistas tratavam superficialmente sobre tudo, e esse tudo incluía amor, amizade e sexo, claro. Essas publicações serviram de terapia improvisada em momentos críticos da adolescência, em crises de desenvolvimento da personalidade ou com a aparência física.

Tive muitas paixões platônicas, afinal, resistir a meninos lindos que cantavam e rebolavam era demais pro meu precário juízo. Na infância quase enlouqueci com Menudos, New Kids on the Block, Dominó, Polegar. Mais tarde vieram Backstreet Boys, N’Sync e dá-lhe saudade! Boy bands são verdadeiras máquinas de amores platônicos e de histrionismo. Latin Lovers também. Que atire a primeira pedra quem nasceu na década de 80 e não estremeceu com Ricky Martin, Robby Rosa, Chayanne ou Luis Miguel, por exemplo. Você assistia a TV para vê-los, não aguentava aquilo e comprava uma revista com eles pra ver se acalmava. Daí o bendito te perseguia nos sonhos até que neles tudo acontecia. Você acordava com sua mãe chamando pra lavar a louça, no auge do erotismo. Pense num ódio… Eita coisa boa é hormônio, não?

Esse preâmbulo foi pra dizer que é impossível desassociar amor de desejo quando despertamos para as primeiras experiências amorosas. Estão imbricados. Quando esse fogo – perdão, essa fase – passa ou convive com aquele momento em que começam os beijinhos e os namoros, o organismo surta. As pernas tremem, o estômago arde, a mão gela e o coração palpita. Começamos a viver o amor com a insegurança do navegante que busca novas terras e, mesmo estando bem treinado, munido de cartografia elaborada e guarnição, é inseguro e total desconhecedor do porvir. Entretanto a vontade de alcançar boas terras é tão grande que ele navega e segue pelo desconhecido com medo e tudo. Sim, o amor é o grande Eldorado.

É justamente por esperarmos uma terra tão desejada e deleitosa que nos perdemos quando o amor não se mostra só calmaria. Nele, ilusão e desilusão são vizinhas sempre prontas a aparecer sem aviso. Quebramos as pernas e desiludimos. Esperávamos tanto do outro que tamanha projeção tornou a satisfação praticamente inatingível, e não por culpa dele, necessariamente. Recentemente uma psicoterapeuta confirmou-me que é raro encontrar alguém que não faça projeção, que não sonhe acordado. Isso vale para homens e mulheres. A ilusão é rebordosa de quem sonhou em excesso e não quis voltar à realidade, não quis sair da ilha deserta e lavar a louça suja que acumulou-se na pia. Parece que escolhemos nos relacionar com nossos sonhos e não com alguém real, que apresenta-se naturalmente falho e incompleto diante de nós. Ocorre que a incompletude também é nossa. É de todos nós, meus caros.

É ruim se decepcionar, principalmente se essa decepção vier de alguém próximo e especial. Entretanto, a decepção pode servir para abrir novos caminhos e trazer mudanças mentais importantes. O problema é que muitos de nós levamos algum tempo para descobrir o momento de libertação que ocorre depois de um rompimento, bem como que é preciso encarar e tentar tirar o melhor desse saldo. Em outras palavras, até percebermos que decepção amorosa não mata mas ensina a viver, algumas estações foram atravessadas e alguns travesseiros foram encharcados. Ocorre que viver é bem mais que só enfrentar problemas (graças!), é existir de fato e com complexidade, ter experiências boas e ruins, é encontrar pessoas que vão nos acrescentar e aquelas que tentarão nos diminuir algo.

Que perdoem-me os amargos e os céticos, mas a gente precisa de fé pra viver, não necessariamente em um Deus, mas na possibilidade do que de bom a vida pode nos aprouver. A nossa capacidade de amar não acaba, é preciso acreditar. Por mais que achemos o contrário, ela fica no máximo enfraquecida, desencorajada, escondidinha dentro de um armário de porão. Mas está lá, ainda que arrefecida e em sono profundo. Embora feridos, magoados de más experiências, envolvidos emocionalmente com alguém que se foi, ainda assim essa primazia de amar não vai embora feito folhas ao vento. Alguns amores vêm e vão, algumas pessoas chegam e marcam indelevelmente nossas vidas (para o bem ou para o mal). O amor muda de lugar ou até esvai-se. Ele pode deixar de existir, mas a capacidade de amar não e talvez seja o que existe de mais precioso no ser humano. Só quem ama experimenta o que existe de mais verdadeiro, o espírito elevado, a existência ter sentido, a poesia enquanto realidade. É uma força inigualável, um sentimento indescritível, uma luz de raro tom. Permanece literalmente vivo quem ama. O amor é o termômetro que indica a situação existencial. Todos podem e devem amar.

Ganhei uma nova amiga recentemente e conversamos muito na noite em que fomos apresentadas. Sendo ela mais velha do que eu – com idade de ser minha avó inclusive, percebi que passa por dilemas emocionais e descrenças no amor. Surpresa? Não. Nada diferente. Tudo normal. Em matéria de relacionamentos humanos todos temos muito a aprender e a experimentar. Ela acha que as sérias deslealdades que tanto machucaram-na no passado criaram um trauma, e que agora ela não mais ama, pois teme encontrar velhas pessoas em novas pessoas. Mas logo ela, tão madura, não sabe que somos diferentes e insondáveis? Que cada um de nós é um universo, um país? Que é equívoco crasso generalizar as personalidades? Não tem jeito, em matéria de amar somos todos crianças. É necessário quebrar a cara com pessoas em diferentes fases da vida para perceber que não há seres incrivelmente maduros em matéria de amor. Jovens são inconsequentes e desapegados? Nem sempre. Os mais velhos são plácidos e amorosos? Nem sempre também. É bom dar adeus a rótulos e apostar no conviver.

Qualquer pessoa (exceção daquelas personalidades que não desenvolvem afeto, as psicopáticas) é capaz de manifestar esse sentimento tão conflituoso quanto fundamental na vida, e da maneira mais distraída e corriqueira: começa o mês e você vai fazer supermercado. Na fila do caixa, a pessoa da frente puxa papo. Conversa vai, conversa vem, o tomate está muito caro… Pimba! Lá está alguém que provoca algo especial; você vai à festa de aniversário do filho da vizinha. Depois de se empanturrar com docinhos e salgadinhos, vai tirar foto e colocam-na ao lado de um galã. Começam a conversar trivialidades e você percebe que ele também é inteligente e interessante. Socorro!; você começa a fazer dança de salão sem a mínima vontade, vai gostando, fazendo amigos, e com o tempo percebe surgir uma amizade colorida. É uma pessoa de alma juvenil e coração rarefeito. É diferente de tudo o que já gostou na vida, mas aconteceu. Há como sondar? Medir? Controlar? É provável que não. Em qual dessas vezes foi mais bonito? Não há como avaliar, porque é sempre bonito o brotar de um bom sentimento como o amor.

O amor dá um up, um plus na vida. É como um vestido vermelho ou uma meia arrastão no visual: levanta! A amplitude do amor abarca a vida, os amigos, a família, os animais, o universo. Há aquele amor clássico e sublimado, que é direcionado especialmente a uma pessoa, o amor conjugal. Ao longo dos tempos, muitas histórias de amor não correspondido foram contadas. Há tantos livros, filmes e tantas canções que retratam encontros e desencontros amorosos. Nem todos os que amam e desejam formar uma família são bem-sucedidos. Há até os que amam a pessoa errada. E como há! Sem falar nos que experimentam a “cegueira”, de tanto amar. Amar em demasia é mais comum do que pensamos.

Cada fase da vida tem suas flores. Diferente do que muitos pensam, o dom de amar não arrefece com o passar dos anos. Não perde sua qualidade. Os sentimentos não envelhecem, o amor não envelhece, nós sim. Ele muda, mas não fenece. O ser humano não deveria subjugar seu dom de amar. Por mais avariado que julgue estar, cada experiência amorosa é inaugural, e isso é extremamente belo! Aquele amor passional lá do início, que é puro fogo, encontra casa em todos os momentos da vida. Essencialmente no início de cada relacionamento vivemos a paixão, aquela fase de tormenta dos sentimentos e dos sentidos, momento em que sublimamos o outro a ponto de nem enxergarmos falhas nele, tenhamos quinze ou sessenta anos. Então lá estaremos nós, após algumas primaveras, marquinhas na face e na alma, calejados de viver, novamente vivendo aqueles momentos em que começam os beijinhos e talvez um namoro. Aí o organismo surta, as pernas tremem, o estômago arde, a mão gela e o coração palpita. Começamos mais uma vez a viver o amor com a insegurança do navegante que busca novas terras … Já vimos esse filme antes, não? Pois então. Ele só muda se sobreviver no tempo, pois ganha a qualidade do amor que sobreviveu e serenou-se.

Talvez haja um mal-entendido ou uma espécie de sofrimento coletivo. O fato é que nem todos os que amam conseguem a respectiva correspondência. Porém, o mais importante não é o desfecho, mas a capacidade de amar. Quando capazes disso, estamos livres para a sincera reciprocidade em outro alguém. Esse casamento entre duas pessoas sempre acontecerá. Quando não acontecer a química com alguém, isso é natural, é pra ser assim mesmo. É duro pra quem gosta ou está atraído. Na hora a gente não entende bem, não aceita, mas a liga simplesmente acontece ou não. Não há nada relacionado com as características das pessoas envolvidas. Quando as peles casam, o abraço encaixa direitinho, o beijo combina, as pessoas logo se pedem, e desde que não seja uma clássica tragédia grega, meus caros, vai rolar sim!

Há situações em que escrever faz-se terapia. É o que ocorre agora, com as assertivas desse texto. Algumas delas são frutos de experiência própria; outras, observação da dinâmica social, dos mundos nossos, tão singulares e comuns ao mesmo tempo. Não deveria viver triste quem não é correspondido no amor. Pelo contrário: viver feliz por ser capaz de amar. Se ama, a vida tem material humano para ser grande. O segredo reside na essência: estar capacitado para o amor.
A felicidade não depende tanto do ser amado, mas do dom de amar. Quem ama já tem o necessário para provar a alegria. Saber amar é a maior felicidade. Evidente que a reciprocidade do amor amplia isso, mas para ser feliz o suficiente é amar.

***

*Versos de Monte Castelo, de Renato Russo, inspirada na 1ª Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios e em soneto de Luís de Camões

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Denise Araújo
Sou Denise Araujo e não tenho o hábito de me descrever. Não sei se sei fazer isso, mas posso tentar: mais um ser no mundo, encantada pelas artes, apaixonada pelos animais, sonhadora diuturna, romântica incorrigível, um tanto sensível, um tanto afetuosa, um tanto criança ...

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