Quero falar um pouco sobre a tristeza.

E começo cheia de dedos pois não sou nenhuma PHD dos estados da alma humana, sou apenas uma poeta empática que observa a si mesma neste mundo e as pessoas em volta. E é nesse pé que eu quero falar sobre a tristeza.

A tristeza pode ter diversas formas, intensidades, colorações. Talvez hoje eu quero apenas divagar sobre um tipo de tristeza, uma melancolia que já me tomou tantas vezes os dias, que foi morar nos meus olhos, que me fez pensar que esse era o jeito adulto de estar na vida.

Todos sentimos tristeza, independente de classe, gênero, idade…
Mas há um tipo de tristeza rotineira, há um tipo de tristeza (sutil e forte) que cria um espaço tão bem definido na nossa alma, que parece constituir a nossa essência e o nosso estar no mundo. Não é que a gente não saiba mais sorrir, mas os nossos olhos carregam um peso que podem se contaminar com lágrimas ou desânimos com qualquer descuido pequeno no caminho. A gente desaprende a relaxar num momento, a ligar o foda-se para os assuntos grandiloquentes, a dar risada dos pensamentos negativos. A gente sempre tem uma sombra de tristeza por dentro que quando nota o nosso relaxamento, vem cochichar nos nossos ouvidos ‘olha, não fique assim tão satisfeito, porque você ainda não resolveu isso, aquilo e aquele outro, porque as pessoas te machucam, porque o mundo é cruel e o amor não lhe está disponível…’

E a tristeza vem acinzentar os nosso momentos sem importância. Vem colocar significado nos nossos afazeres simples do dia a dia. Vem dar um belo toque dramático no nosso temperinho simples daquele dia.

Pra mim tristeza assim pode ser um vício. Vício nosso de querer colocar notas a mais na simplicidade da vida, vício de acreditar que carregamos culpas sem fim, vício de achar que não podemos relaxar os ombros e deixar que as marés da vida atuem silenciosamente nos nossos destinos.

Desaprendemos a sutil capacidade de ser feliz por nada. Porque a gente se cobra muito, porque a gente mede as consequências de tudo, porque a gente vive o dia de amanhã e a vida dos outros.

Às vezes essa tristeza nos coloca de cama, sem coragem pra nada, perdemos a força para fazer coisas que gostamos, nos entregamos a esse estado de espírito. Eu sei, ele aparece e às vezes é mesmo maior que tudo. Mas a gente precisa começar a, devagar e sempre, resgatar a nossa infância perdida, o nosso gosto por fazermos as tarefas do dia sem tantos pesos no corpo e na mente.

A gente pode pegar uma vassoura, ligar uma música, sorrir para o gato que passa, dar uma volta no bairro, espantar a responsabilidade de ser grande, navegar numa maré mais tranquila.

A gente esqueceu disso, mas é permitido não saber do dia de amanhã, seguir roteiros diferentes do que a maioria, exigir menos da gente mesmo e das pessoas, puxar o tapete de quem só sabe reclamar.

A gente pode focar em cuidar do próprio jardim, desativar as expectativas. Abrir as asas, respirar fundo, quebrar as pernas das muletas e deixar a alma ser livre no mundo.

Parece que seguindo assim, mais leve no sentir o mundo, devagar a gente vai mudando o tom da vida, vai corrigindo a postura da alma, vai acreditando mais na luz do sol que entra inevitavelmente pela janela do que nos pântanos que ocuparam os nossos jardins internos.

Imagem de capa: SusaZoom/shutterstock

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Clara Baccarin
Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 3 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresária... Hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem três livros publicados: o romance ‘Castelos Tropicais’, a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’, e o livro de crônicas ‘Vibração e Descompasso’. Além disso, 13 de seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’.

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