No momento em que publico esse texto, estou lendo um livro excelente chamado “A vida que vale a pena ser vivida”, do professor e filósofo Clóvis de Barros Filho em parceria com o também filósofo Arthur Meucci.

Esse livro traz inúmeras provocações ao leitor sobre o que podemos considerar uma vida boa.

Farei uma breve reflexão a partir de um trecho super engraçado no qual o Clóvis fala da primeira vez em que teve um momento de êxtase que não queria que acabasse. Tinha 13 anos e estava apresentando um trabalho sobre o Petróleo. Tinha decorado bem o que estava nos livros, e devido sua empolgação, falou rápido demais, sobrando bastante tempo de apresentação ainda.

Bateu nele um medo danado e nessa hora ele conta assim em seu livro:

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Decidi, então, continuar. Neste momento, lembrei do meu pai. Sem nenhum estudo superior, sempre dizia coisas que, mais tarde, encontrei, com outras palavras, na mais refinada produção filosófica.

– Presta atenção! Demore o tempo que for para se decidir. Mas, uma vez tomada a decisão, encapsule-se e avance. O mundo inteiro poderá se articular para se opor a ela. Mas, pra trás, nem pra pegar impulso.

E para concluir, com o carinho de sempre:

– Seu bosta!

Empertiguei-me e continuei.

Até aqui falamos apenas da existência das principais bacias petrolíferas do planeta. Não vou me alongar. O assunto é simples. Basta ler no livro. A partir de agora, pretendo expor algo mais complexo. Não está no livro! Peço que anotem porque pode cair no vestibular. Trata-se da qualidade energética do petróleo destas diversas bacias…

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Achei magnífica a sabedoria do seu pai juntamente com sua irreverência, que certamente passou para o seu filho, porque uma aula do Clóvis, além de ser riquíssima em conteúdos filosóficos, faz qualquer um bolar de tanto rir.

O mais interessante é o que seu pai diz sobre demorar o tempo que for. Isso é secundário! O mais importante é, uma vez encontrado aquilo que nos faz vibrar de emoção, não recuar em hipótese alguma.

Essa determinação, infelizmente, é para poucos, e acredito que seja também por isso que vemos tantas pessoas infelizes, não apenas nos seus trabalhos, mas nas suas vidas como um todo.

Cada um de nós tem talentos únicos e intransferíveis. Ou seja, não adianta ninguém dizer pra você: “Faça isso! Faça aquilo! Siga esse caminho, siga aquela carreira…”.

Cada um deve descobrir por si, e o mais barato de tudo é que muitas vezes essa descoberta vem com muita dor e sofrimento. Isso faz parte do nosso processo de crescimento e amadurecimento.

Eu mesmo! Precisei sofrer muito até finalmente concluir que meu caminho não era com pesquisas em Física, mas era trabalhar com pessoas, com o ensino, entender cada vez mais e melhor a mente humana. E nesse caminho de altos e baixos, acabei encontrando a escrita, que como sempre digo, considero uma forma de ensino também, pois transmito através dos textos não apenas conhecimentos em si, mas vivências, experiências de vida entende?

***

A gente sabe que está seguindo no caminho certo para a gente quando temos essa sensação que o Clóvis sempre comenta em seus livros e palestras. A sensação de que não queria que acabasse. Esse êxtase é maravilhoso! Tem gente que passa a vida inteira sem sentir isso… Como pode meu Deus? Sim! Pode sim! E acontece com mais frequência do que se imagina.

Poucos dias antes de escrever esse texto, eu revi um aluno brilhante que dei aula há alguns anos. Era bem participativo e só tirava notas boas. Fiquei muito feliz em revê-lo e ele me disse que estava cursando Direito na UFC (Universidade Federal do Ceará).

Na mesma hora eu disse a ele: “Que maravilha! Fico muito feliz por tua conquista…”.

Nessa hora acendeu uma luzinha em mim. Não percebi entusiasmo na sua fala e ele inclusive disse que estava seguindo no curso muito pensando na segurança que ele proporcionaria ao concluí-lo.

Nem alonguei em dizer pra ele o que achava disso tudo porque ele já sabia o que penso. Eu sempre falo em sala de aula sobre amarmos nosso trabalho, darmos o melhor de nós no que escolhemos fazer…

Desejei a ele sucesso e boa sorte no curso, mas me despedi pensando.

– Algo me diz que lá na frente ele fará outra coisa. Decidirá por cursar algo diferente ou se especializar em algo diferente…

Assim como esse meu ex-aluno, acontece com milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo todo. Escolher algo por algum tipo de conveniência ou benefício como a segurança.

Não canso de escrever e falar sobre isso de inúmeras formas diferentes, porque sei que a cada novo texto e cada abordagem diferente sobre o mesmo tema vai suscitar mudanças nas pessoas certas.

Nessa hora, acabo me lembrando das geniais palavras do grande escritor Milan Kundera que dizem assim: “O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, descobre um tema que irá fazer parte da partitura da sua vida. Voltará ao tema, modificando-o, desenvolvendo-o e transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata”.

Vale lembrar que as partituras das sonatas seguem uma espécie de script bem ordenado e organizado. E o estilo de cada músico é facilmente identificado pela estrutura dessas partituras.

Minha partitura consiste em escrever sobre buscar o próprio caminho. Não é à toa que sou fã de carteirinha do Raul Seixas e uma de suas frases que praticamente me define é essa aqui: “Siga o seu próprio caminho, pra ser feliz de verdade…”.

Tenho sérias dúvidas se esse meu ex-aluno está de fato seguindo o próprio caminho dele ou talvez tenha medo de ser mais autêntico e seguir por um caminho que dê pouco reconhecimento ou um salário baixo, mas que lhe encha de alegria e entusiasmo.

Portanto, esse é o resumo de tudo. Busque, busque e busque até encontrar o seu caminho, aquilo que fará você levantar da cama pulando de tanta energia. E jamais olhe pra trás, nem mesmo pra pegar impulso… Essa é a vida que vale a pena ser vivida!

Imagem de capa: Pixabay

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Isaias Costa
Bacharel em Física. Mestre em Engenharia Mecânica e Psicanalista clínico. Trabalha como professor de Física e Matemática, mas não deixa de alimentar o seu lado das Humanas estudando a mente humana e seus mistérios, ouvindo seus pacientes e compartilhando conhecimentos em seu blog "Para além do agora", no qual escreve desde 2012.

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