Talvez tivesse que ser assim. Talvez a nossa humanidade tivesse mesmo que nascer dentro de outro ser humano para garantir que pelo menos uma pessoa no mundo, ia amar a gente de qualquer forma. Acima dos peitos vertendo leite e mamilos doloridos. Acima das fraldas. Isso sem contar a pá de decepções que, vez que outra, traríamos pra casa. Alguém nesse mundo tinha que garantir que haveria um abraço quando tudo parecia perdido.

Pode ter sido Deus. Ou mesmo a seleção natural que definiu que a nossa chance de sobrevivência em um mundo, muitas vezes, frio e duro, dependia da garantia de um – pelo menos UM – amor eterno. É por isso que a gente nasce bonitinho. As chances de nossas mães desistirem desse perrengue que é a maternidade depois de algumas noites sem dormir eram tão grandes, que aprendemos a ser fofos mesmo com cólica. A gente precisava de amor e cuidado, então Deus ou Darwin criou as mães.

A gente bem sabe que amores românticos explodem e morrem. Amizades são mais permanentes, mas ainda assim, vem e vão. Então mãe é aquele seguro de vida que nasceu com você. Literal e figurativo. Espiritual ou naturalista, você há de admitir que “mãe” foi a peça-chave na sobrevivência e evolução da humanidade (grupo social ou benevolência).

Não é tão difícil de entender. A gente nasceu dentro delas, oras. Nossos corações pulsaram juntos. A gente dividiu enzimas, nutrientes. Alimentamo-nos do corpo delas, e elas, em contrapartida, nos sentiram crescer. Ok, você poderia dizer o mesmo sobre parasitas, mas elas escolheram acolher esse parasita. É impossível que essa coexistência não crie laços profundos. Nós somos os parasitinhas que elas escolheram cultivar.

A minha mãe certa vez me disse, que depois que eu nasci ela nunca mais se sentiu sozinha. E hoje penso que talvez seja, porque até antes de eu nascer, eu não era uma pessoa, eu parte dela. Eu era muito ela! Não dava pra separar nós duas. E depois que eu nasci…, bom, daí eu virei outro ser humano, criei independência. Mas então ela percebeu – olha que coisa louca – que não dava pra separar nós duas da mesma forma. E fazem mais de 30 anos que o cordão umbilical se foi.

Mãe é um bicho poderoso, sabe? Ela é aquela que nos faz acreditar que tudo é possível, e talvez seja o único combustível necessário para gente ganhar o mundo. Sabe aquela coisa do “minha mãe disse que eu posso”, e você vai lá toda corajosa porque ninguém mais precisa acreditar em você? E nestas a gente arrasa. Mas essa confiança toda é perigosa, afinal mãe é sua cúmplice eterna. Na pior das hipóteses, vai esconder o corpo junto contigo, se necessário for. Eu sei, homicídio não combina com Dia das Mães, mas juro que é metáfora. Ela é aquela que se for pra ir para o inferno contigo, vai sentada na janela. Segurando tua mão.

E mãe é isso. É segurar a tua mão, porque já não dá mais pra te proteger da vida dentro da barriga.

Não faz muito tempo que eu tive uma puta decepção, daquelas que faz a gente perder o ar e ter que revisar o futuro. E eu me lembro de subir no alto de um morro com vista pra praia, e de ligar para minha mãe, entre prantos e falta de ar – porque cardio e sentir raiva são péssima combinação – e dizer para ela que eu estava pronta. Que deu. Que talvez eu não fosse do tipo que ia casar e ser a mãe dos netos dela. Que talvez eu fosse do tipo que ia viajar o mundo até ficar bem velhinha. E eu esperava que ela me dissesse que não, que meu futuro ia ser de uma família, com filhos, do jeito que ela fez.

Mas as mães sabem melhor o que a gente precisa ouvir. Porque afinal, a gente nasceu dentro delas. “E vai ser maravilhoso não vai?” – ela me perguntou. “Se tu viajar pelo mundo até ficar velhinha… vai ser maravilhoso, não vai?”. Fiquei em dúvida se a perspectiva de não dar-lhe netos havia a desconsertado a ponto de não estar falando coisa com coisa. “Se tu ficar velhinha viajando, ou se tu casar e tiver filhos. Vai ser maravilhoso de qualquer forma. Porque a vida é tua, e tu vai transformá-la em algo maravilhoso.”

E nesse pensamento eu me acalmei. Eu me lembrei que com ela, eu também nunca, NUNCA, vou estar sozinha. Porque foi assim desde o dia que eu nasci de dentro dela.

A minha mãe é aquela que me lembra diariamente que me criou pra ser feliz. Que tenho asas do tamanho de continentes. E talvez seja a única pessoa que sabe o real tamanho da minha força. E quando “ser forte” não é uma opção, ela me lembra que a sacada do meu quarto na sua casa vai ser sempre o nosso refúgio. É com a minha mãe que eu faço planos para o futuro. Não para o futuro imediato – esse dos próximos 10 anos. Com a minha mãe eu faço planos pra 30,40 anos, quando os nossos maridos já não estiverem mais por perto (ou se na condição de velhinha viajante) e a gente for a melhor companhia uma pra outra – como sempre foi e sempre vai ser.

E assim a gente planeja que ela vai morar por um tempo numa casa de repouso que tenha bailinho dançante às quintas-feiras. Ou alternativamente planejamos lugares que gostaríamos de ir, casas que poderíamos comprar, e dias de beleza que ainda iremos ter. Talvez eu faça planos para o futuro com ela, porque em algum momento eu também gostaria de protegê-la da vida. Eu gostaria que coloca-la na minha barriga, como ela fez comigo. Sabe, coisa do tipo de amor que só se cria entre humanos que nasceram dentro de outros humanos.

Então como já disse, talvez tenha sido Deus ou Darwin quem criou as mães. A única certeza que tenho, é que não existiria humanidade – grupo social ou benevolência – sem elas.

Fim da sessão.

***

Imagem de capa: Alena Ozerova, Shutterstock

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Antônia no Divã
Uma questionadora fervorosa das regras da vida. Viajante viciada em processo de recuperação. Entusiasta da escrita. Uma garota no divã figurado e literal. Autora do blog antonianodiva.com.br.

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