Tenho olhado pra esse mundo com um certo pesar e uma sensação de nostalgia pelos tempos idos. Fico a me perguntar o que aconteceu com algumas palavras que parece que caíram em desuso, ficaram fora de moda. Delicadeza talvez seja a que eu sinta mais falta. Na modernidade líquida, como bem nomeou Bauman, não há tempo a perder com as pequenezas do dia-a-dia, tudo é rápido, veloz e até de uma certa forma, estúpido. “Você tem câncer”, “você está demitido”, “eu não te amo mais”, “nosso casamento acabou”, são frases ditas quase que da mesma forma que “mê vê dois quilos de contra-filé”. Sem tato, sem cuidado, sem se importar com aquele ser humano que está ali na sua frente a receber uma notícia que mudará a sua vida, enfim, sem delicadeza. Conversas olhando olho no olho, términos de relacionamentos, transmissão de notícias tristes parece terem sido substituídas por meia dúzia de palavras digitadas as pressas num aplicativo que só não é mais frio porque não tem espaço. Acho ótimo essas novas tecnologias e toda a comodidade e praticidade que elas nos trouxeram, mas muita calma nessa hora, um emoji com uma carinha triste nunca vai substituir um “eu sinto muito, me desculpe por tudo” dito com a delicadeza de quem sabe que ali na sua frente tem um ser humano. As máquinas vieram para nos ajudar, não para nos substituir. Um abraço, um colo, um cafuné, um puxão de orelha, uma lágrima… Isso só é possível cara a cara, olho no olho. Empatia é outra palavra que anda com pouco espaço nesses últimos tempos. Segundo o dicionário é a capacidade de compreender o sentimento ou reação da outra pessoa imaginando-se nas mesmas circunstâncias. Olha quanta delicadeza… Ser capaz de se colocar no lugar do outro e assim compreender como esse outro se sente. Temos feito isso? Julgar é fácil, repreender é fácil, não se envolver é fácil. Quero ver é você por um segundo se perguntar: Eu gostaria que falassem isso pra mim? Me sentiria bem recebendo essa notícia dessa forma? Como seria minha reação se não me dessem chance para me defender? Simples e tão complexo. Parece que o Eu ocupou todo o espaço na nossa vida e o Outro… Ah, o outro é problema dele. Cuidar de si e da sua vida é lindo e super saudável, mas como seres que vivem em comum-unidade, não custa nos preocuparmos um pouquinho com o outro certo? Delicadeza ao falar, ao julgar, ao fazer uma crítica, ao comunicar uma notícia. Não vai doer nada, eu prometo, aliás , além de não doer nada em você vai até doer menos no outro. Não esqueça que além de você ser o Eu, você é o Outro de alguém e esse outro com certeza quer ser tratado com delicadeza né?

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Josielly Pinheiro Westphal
"Psicóloga de vez em sempre, organizada de vez em nunca. Escreve sobre coisas aleatórias e em momentos mais aleatórios ainda. Tem mania de observar tudo ao seu redor, mas tem opinião formada sobre bem poucas coisas. Aprendiz na arte de encerrar ciclos e de se abrir para novas experiências. Acredita em Deus e nas pessoas. Gosta muito do mar, de sol, da família, dos amigos. Corre, malha, faz trilha, come e bebe quando tem vontade. Sensível e durona, teimosa e manhosa: HUMANA.

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