Minha mãe sempre foi daquelas que dizia que tesoura fazia xixi na mão de criança, que isso ou aquilo não era brinquedo, que em uma dessas eu me machucaria ou acabaria machucando alguém. Quando parei pra pensar nas últimas histórias que tenho vivido, imaginei logo ela me dizendo, coração alheio não é brinquedo meu filho. Sigo de coração aberto, mas com uma preguiça imensa das pessoas. Vou contar o porquê. Tenho me decepcionado mesmo diante das mínimas expectativas. Vai dizer que a gente não projeta na pessoa nosso sonho todo e isso quase sempre é muito mais do que ela realmente é, ou até mesmo do que conseguirá ser um dia? Minha mãe me disse sempre pra me tornar o tipo de pessoa que eu gostaria de conhecer; levei isso tão a sério, tão a sério, que virei um chato. O fato é que ninguém tem responsabilidade por não alcançar minhas insaciáveis expectativas.

A chave de tudo é que ninguém é perfeito, muito menos eu que sigo procurando em alguém tudo aquilo de que venho me munindo ano após ano, fim após fim. Eu já fui desses superficiais também. Foi numa cama depois de uma transa nada sóbria que ouvi uma garota me contar sobre o quanto eu havia partido seu coração e que de um jeito ou outro eu era responsável por cada uma das atitudes nocivas que ela tomou. Volta e meia ainda cruzo com ela e, se olhar naqueles olhos eu vejo que já machuquei o coração de alguém porque não o segurei com cuidado. Agora, eu tenho essa necessidade absurda de me virar no avesso, não criar joguinhos, jogar sobre a mesa meus defeitos, minhas ambições, e meus medos, sobretudo aqueles que nunca contei para ninguém. É que a paixão é mesmo um estado temporário de demência e quando o barato passar vai restar quem eu sou, só a verdade. Num mundo muito preocupado em PARECER, eu sou quem quero SER e pago um preço alto por nem sempre encontrar alguém disposto a agir da mesma forma.

O que eu não quero é ter que medir os sentimentos porque demonstrar pode me deixar fraco e me tirar o controle. Não é sobre o quão fundo e intenso você pode ir numa relação, mas o quanto a estabilidade com meus anseios e a maturidade conseguem me fazer voltar à tona e respirar novamente sem muito esforço. É sobre o quão assustadoramente tenho conseguido arrancar alguém de mim tão rápido e deixando pouquíssimas marcas. É sobre não criar expectativas que eu talvez não tenha a capacidade de corresponder. É sobre não fazer o coração de ninguém meu brinquedo de malabares, correndo o risco de fazê-lo em pedaços. É sobre, acima de tudo, não deixar meu coração nas mãos de ninguém.

A gente precisa aprender a respeitar a felicidade individual num relacionamento sim, mas não dá pra confundir isso com libertinagem achando que a gente pode sair por aí se desperdiçando e depois voltar pra quem nos espera com o coração cheio de esperança. É preciso jogar limpo e, acima de tudo, saber a hora de dar o fora da vida de alguém. Decide o que você quer! Se entregar ao amor é se prender um pouquinho sim, é dividir um pouquinho, é dizer onde vai porque quer, é se preocupar se ela conseguiu almoçar no intervalo mesmo pendurada nos livros, é saber se ele comeu, porque sabe que ele nunca se alimenta direito. Amar é um pequeno risco. Se você quer liberdade, fica solteiro, não muda seu status na vida, segue só com suas participações “especiais” que nunca quebram esse ciclo de liquidez. Não tô dizendo que o amor tem que prender, mas amor é ter pra onde ir, pra onde voltar.

Tu podes até estar confuso e a confundir intensidade com paixão, errando de saudade pra alimentar a própria solidão. Tu podes até querer conhecer alguém e deixar os braços e a cama abertos sem nenhuma pretensão. Tu podes ter medo do futuro e não ferir por má intenção. Mas escuta bem aqui, não estraga esse sorriso que é o mais lindo do mundo, olha bem onde tu pisas… Não faz o coração alheio de brinquedo, não.

Imagem de capa: Dean Drobot, Shutterstock

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Giovane Galvan
Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.

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