Vai passar, claro que vai. Talvez amanhã, talvez semana que vem, talvez depois do carnaval. Sempre passa. Se tem algo que podemos ter certeza nessa vida esse algo diz respeito a transitoriedade de tudo, inclusive a nossa. Mas ainda não passou. Ela, a tristeza, continua aqui. Sem motivos palpáveis, sem justificativas, sem razões claras. Para dor não cabem explicações. Está tudo aparentemente bem, ao seu redor tudo está no lugar… Eis que ela chega. Sem bater, sem pedir permissão, sem ser convidada. Entra e toma conta, entra e transforma riso em pranto. Ela que anda perdendo seu espaço. Ninguém cita sequer seu nome nas rodas de conversa. Redes sociais? É crime até mesmo assumir a sua existência. Tristeza que dura mais que um dia? Psiquiatra, fluoxetina e rivotril. Por mais que tente ser maquiada, medicada, mascarada, escondida, ela continuará a apelar por atenção. Então deixa que ela fique por aqui. Vai dar vontade de dormir 24h seguidas ou nem levantar da cama, vai dar vontade de não responder ninguém, vai dar vontade de viver em um mundo a parte. Tristeza é sentimento legítimo, pode e deve ser vivido com a intensidade e tempo que forem necessários. Vão perguntar se está tudo bem e a resposta talvez seja que sim, pelo simples fato de não querer ou não saber falar sobre ela. Mas não está tudo bem, mesmo com o sol lindo que está fazendo lá fora, aqui dentro parece tudo meio cinza e nublado. Olho pra rua e vejo um dia convidativo pra sair, abro a agenda e vejo compromissos a serem cumpridos, pego o celular e vejo conversas aleatórias, ligo a tv mas é como um amontoado de vozes falando coisas que não fazem sentido. Aliás, nesse momento nada parece fazer muito sentido. Deixa que assim seja, tudo bem desmarcar um compromisso, tudo bem não atender uma ligação, tudo bem não exibir um sorriso no rosto, tudo bem sair no meio de uma festa, tudo bem não ter vontade de sair da cama. Não há nada de errado em dar voz aos nossos sentimentos, mesmo os que não são socialmente aceitáveis. Tomara que as pessoas ao redor entendam, se não entenderem, paciência. Quem não sabe conviver com a dor do outro é porque não sabe conviver com a sua própria dor, e quem não ouve a sua dor, transforma-a em gastrite, enxaqueca, herpes, úlcera… Então, que a gente saiba dar vazão aos nossos sentimentos, saiba aceitar que nem todo dia é oba-oba, saiba reconhecer quando algo aqui dentro não estiver bem, saiba que tristeza é tão legítima quanto alegria. Enquanto ela estiver por aqui, vou ver o que tem a me ensinar… Parei de querer expulsá-la, aprendi que a tristeza só vai embora quando não houver mais motivos para sua permanência. Então, fique aqui, vamos tomar um café, ou um vinho, vamos falar das suas razões, vamos deixar as lágrimas rolarem. Vai passar, eu sei que vai, mas não agora.

Imagem de capa: Aleshyn_Andrei, Shutterstock

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Josielly Pinheiro Westphal
"Psicóloga de vez em sempre, organizada de vez em nunca. Escreve sobre coisas aleatórias e em momentos mais aleatórios ainda. Tem mania de observar tudo ao seu redor, mas tem opinião formada sobre bem poucas coisas. Aprendiz na arte de encerrar ciclos e de se abrir para novas experiências. Acredita em Deus e nas pessoas. Gosta muito do mar, de sol, da família, dos amigos. Corre, malha, faz trilha, come e bebe quando tem vontade. Sensível e durona, teimosa e manhosa: HUMANA.

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