Lá estava eu, cabisbaixa e sentada no banquinho da praça da matriz. Com os óculos escuros, escondia o semblante cansado dos últimos tempos e as olheiras das noites mal dormidas.
Seu Mané, o zelador da praça, conhecido por sua simpatia e humildade sem tamanho, me cumprimentou e sentou ao meu lado queixando-se das pernas repletas de uma caminhada longa. Tirou o boné rasgado e coçando a cabeça me disse: “- Alguns cansaços vem da teimosia desnecessária, não é minha filha?”.
Respondi com um seco e ardiloso “pois é.”.
O vento soprava forte e as folhas que ele tentava juntar num canto se espalhavam numa valsa ao redor da fonte.
Seu Mané permaneceu ali por alguns minutos até o vento cessar. E então, com outra energia, disparou um “ai, ai” e voltou a varrer as folhas. Juntou-as em tempo recorde, me direcionou um riso faceiro e saiu a carregar o saco cheio das folhas do nosso outono.
Foi então que entendi o que ele dissera sobre o cansaço advindo da teimosia.
Não tente varrer as folhas enquanto o vento se diverte soprando e espalhando-as sem rumo. Ao invés disso, procure uma sombra, sente, descanse, admire a valsa, o canto, o passo, o cansaço…
Não adianta brigar com a natureza e remar contra a maré, durante a tempestade.
Algumas coisas na vida se resolvem naturalmente. É só descansar.
Não force. Não corra mais do que seu anjo da guarda pode voar.
Alguns cansaços vem da teimosia!
Pare!
Existe um tempo certo para agir.
Imagem de capa: Denis Kuvaev, Shutterstock
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