O que leva um adolescente a querer tirar sua própria vida?

Recentemente as famílias de um tradicional colégio da cidade de São Paulo foram diretamente atingidas por dois casos de suicídio, num período curto de tempo. Nos dois casos, aqueles que recorreram ao recurso extremo de pôr fim à própria vida, eram adolescentes, estudantes do Ensino Médio.

O luto vivido pelos pais, colegas, familiares, professores e demais funcionários da escola vem inevitavelmente acompanhado de muitas perguntas: Por quê? O que deixamos de perceber? De quem é a culpa? Havia como evitar?

Perder um filho é devastador. Ainda que os pais sejam muito idosos e o filho já seja adulto, ver um filho partir é uma experiência horrivelmente dolorosa para os pais; pois subverte a ordem natural da vida. Então, imagine a intensidade da dor daqueles que perdem seus filhos no ápice da vida; imagine o que é ter de lidar com a ausência de um filho jovem que escolheu não viver mais.

Os amigos, e mesmo os outros jovens que conheciam apenas de vista aquele que cometeu suicídio, veem-se numa situação de desequilíbrio emocional coletivo. Junto da dor, vem a curiosidade inevitável, posto que jovens são curiosos por natureza. E, não, não se trata de um comportamento desrespeitoso ou insensível; é a essência daqueles que ainda estão descobrindo a vida, buscando entender as fissuras dolorosas a que são submetidos.

Muitas vezes, aquele que partiu precocemente recebe do grupo muito mais atenção agora que já não está mais entre eles; passa a ser objeto de interesse; passa a fazer parte do imaginário; passa a ser o assunto mais frequente por muitos dias. No entanto, infelizmente, passado algum tempo, o fato será esquecido e, muitas vezes substituído por “questões mais urgentes” e que requerem a atenção daqueles que ficaram, como o vestibular, por exemplo.

O Ministério da Saúde divulgou recentemente dados alarmantes: o índice de suicídio cresceu no Brasil entre 2011 e 2015, sendo a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 e 29 anos; o meio mais utilizado é o enforcamento; 35,8% dos casos estava ligado à depressão, sendo o maior percentual; em segundo lugar, aparecem transtornos decorrentes do uso de substâncias lícitas ou ilícitas. Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, a presença de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) nas cidades reduz o risco de suicídio em 14%; no entanto, estas instituições só estão presentes em 2463 dos quase 6 mil municípios do país.

A despeito das impactantes estatísticas, o mundo evoluiu em termos de ações para a prevenção ao suicídio. Até a década de 1980, acreditava-se que a divulgação dos casos poderia incentivar a ocorrência de outros, por imitação; sendo assim, era habitual evitar falar sobre o assunto. Entretanto, estudos e aprofundamentos sobre o suicídio, avançaram; hoje a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que PRECISAMOS FALAR SOBRE O ASSUNTO. Sabemos agora que a prevenção passa por um longo processo de pesquisas, desenvolvimento de programas de apoio e aconselhamento e muito diálogo entre todas a partes envolvidas: profissionais de saúde, educadores, familiares e os próprios jovens e crianças, inclusive.

Uma das questões apontada pelos pesquisadores alerta para o atual modelo de educação; estamos criando nossas crianças em bolhas blindadas de proteção; evitamos a todo custo que elas sofram qualquer tipo de aborrecimento ou privação. A consequência é que estas crianças chegam à adolescência precocemente em função do bombardeamento de estímulos externos e de uma cada vez mais prematura explosão hormonal, ao mesmo tempo em que não contam com recursos suficientes para administrar essas mudanças e sem praticamente nenhuma capacidade de lidar com as frustrações.

Junte-se a isso uma quantidade considerável de famílias desestruturadas, mais pais perdidos e com dificuldades para encontrar um equilíbrio entre liberdade e autoridade amorosa, mais uma estrutura educacional despreparada para lidar com esses jovens e crianças. Escolas muitas vezes omissas em relação às inúmeras demandas de seus alunos e não raras vezes sendo protagonistas na defesa de espaços educacionais que priorizam uma avalanche de conteúdos pedagógicos, muita pressão por resultados e nenhuma reflexão.

Não há fórmulas mágicas, não há sequer razões coincidentes entre todos os casos de suicídio. No entanto, a maioria deles tem relação com distúrbios mentais, como depressão e transtornos de ansiedade que podem ser causados por inúmeros elementos estressores, por desequilíbrio químico do cérebro e, também pelo consumo de álcool e drogas. Há ainda os fatores diretamente ligados ao cenário de convívio social dos jovens e crianças que vão desde a falta de atenção familiar à casos de Bullying.

Existe, inclusive, a hipótese de que o uso de alguns antidepressivos possa contribuir para que se instale o desejo suicida. Ainda não há pesquisas suficientes para que se estabeleça um consenso a respeito, mas consta na bula da maioria destes medicamentos que “casos isolados de ideação e comportamento suicidas foram relatados durante o tratamento”. Muitas vezes, o antidepressivo promove num espaço mais curto de tempo a melhora das queixas físicas; para só depois de algumas semanas começar a promover a melhora psíquica, e este descompasso pode fazer com que o paciente, sentindo maior vigor físico, saia da letargia depressiva ainda sem ter os transtornos psicológicos estabilizados.

Aqueles que planejam tirar a própria vida ou que estejam apenas cortejando a ideia não trazem isso escrito na testa, inúmeras vezes, inclusive, suas intenções passam desapercebidas. Porém, há sinais que podem indicar a presença de ideação suicida:

• Oscilações de humor
• Isolamento
• Alterações no sono
• Alterações no apetite
• Irritação ou explosões emocionais
• Queda no rendimento cognitivo
• Desinteresse por atividades que antes eram queridas
• Abuso de bebidas alcoólicas
• Prostração ou agitação excessivas
• Falas disfarçadas de ameaça (ao contrário do que diz o senso comum, quem quer se matar, muitas vezes avisa, sim!)

O assunto é extremamente sério, difícil, complexo e doloroso. E a solução passa por um movimento de ação conjunta de todos os setores da nossa sociedade. A morte prematura desses jovens é problema de todos e de cada um de nós. Que a exposição de suas vidas na mídia não seja apenas “mais um assunto de comoção geral”. Que as suas vidas tão precocemente interrompidas desperte em nossos ânimos uma vontade perene de evitar a todo custo que essa triste história se repita.

Imagem de capa: Marjan Apostolovic, Shutterstock



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"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

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