É preciso se amar, é preciso cair fora de relacionamentos que não nos deixam felizes, é preciso desistir de quem não nos é recíproco. São muitos os mandamentos para ser uma pessoa bem resolvida e com amor próprio. Eu leio frases como essas diariamente (e até já as escrevi). Mas e na prática? É tão fácil assim ser essa pessoa que se ama acima de todas as coisas?

A verdade é que ninguém nasce pronto. A gente aprende praticando, dando cabeçada e consequentemente, errando. Basta lembrar de quando aprendemos a escrever. No início parecia impossível. Foi necessário muito treino e dedicação para que um dia finalmente pudéssemos falar: sei escrever.

Em se tratando de relacionamentos, a dinâmica ainda é mais complexa pelo simples fato de envolver pessoas e emoções. Eu escrevo textos com algumas das minhas vivências e aprendizados e às vezes ouço que meus textos são inspiradores, que eu pareço ser uma pessoa forte e bem resolvida, que coloca pra correr todo e qualquer ser humano que não me trate como mereço ou que não seja recíproco ao que sinto. Mas a verdade é que sou humana e estou em constante aprendizado. Já houve situações em que dei muito mais valor do que fui valorizada, já amei muito mais do que fui amada, já acreditei e apostei naquela relação quando o outro não estava nem aí.

A culpa seria minha por me permitir receber tão pouco? A culpa seria do outro por não dar fim em algo que claramente não era tão importante pra ele assim? Creio que não existam respostas prontas para essas perguntas. Essas situações foram necessárias para a minha evolução, para o meu aprendizado, para a construção de quem sou hoje.

É preciso passar por situações críticas para que enfim sejamos melhorados. Tudo vai depender de como lidamos com isso e do que fazemos com isso. Se você acredita em uma relação, é necessário que você aposte nela e que você a viva. Receitas prontas muitas vezes nos impedem de vivenciar algo que precisa ser vivenciado para que haja realmente uma evolução interior.

No fim das contas, aquele relacionamento onde só eu amava e me colocava inteira, acabou por si só. Não por jogo. Não porque eu li em algum lugar que se o cara não valoriza, a gente tem que cair fora, mas porque eu me permiti ver com meus próprios olhos e me permiti sentir, com meu próprio coração, que aquilo não tinha futuro e nem me era satisfatório. E eu acredito muito que somente quando isso vem de dentro é que a gente consegue mesmo se desprender de algo ou alguém. Opiniões de fora ajudam, mas não nos fazem esquecer ninguém.

Eu poderia dar mil conselhos sobre como ser bem resolvida no amor. Mas acredito piamente de que temos que “experenciar”. Foi só ficando dias no vácuo que eu entendi o valor da disponibilidade afetiva. Foi só estando em uma relação não assumida que eu entendi que ser assumida é uma forma de valorizar e até respeitar o outro. Foi só percebendo o interesse do outro por outras pessoas é que eu vi que eu merecia fidelidade e segurança emocional. A partir daí, o fim (da relação e do meu interesse naquilo) foi apenas uma consequência.

Resumindo, o que o outro me ofereceu foi pouco. E a princípio me contentei com esse pouco, afinal, eu gostava tanto. Mas logo esse pouco já não me fazia bem. E é justamente nesse momento que a gente tem a oportunidade de exercer o amor próprio. (Porque o amor próprio não é algo que se vem pronto em uma caixinha, a gente escolhe se o exerce ou não). Eu optei por estar comigo mesma porque era preferível estar só comigo mesma a estar sozinha em um relacionamento a dois. Não aprendi isso do dia pra noite. Pra ser bem sincera com quem me lê, demorei muito mais do que gostaria. Talvez porque naquele momento os meus sentimentos pelo outro fossem maior do que os meus sentimentos por mim mesma. Mas aprendi. Foi não me amando, que aprendi a me amar. Como a hipertrofia dos músculos, o amor próprio vem com treino e muitas vezes com dor. Basta que estejamos aberto ao novo, às mudanças e que saibamos que para se ter aquilo que julgamos merecer, precisamos passar pelos caminhos íngremes e tortos. Passar por caminhos íngremes e tortos, friso, o que é bem diferente de estacionar nesses mesmos caminhos. Pois é só abrindo mão do que nos machuca é que estamos livres para alcançar aquilo que verdadeiramente merecemos.

Imagem de capa: Pixabay

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Nat Medeiros
“Sou personagem de uma comédia dramática, de um romance que ainda não aconteceu. Uma desconselheira amorosa, protagonista de desventuras do coração, algumas tristes, outras, engraçadas. Mas todas elas me trouxeram alguma lição. Confesso que a minha vida amorosa não seguiu as histórias dos contos de fada, tampouco os planos de adolescência. Os caminhos foram tortos, íngremes, com muitos altos e baixos e consequentemente com muita emoção. Eu vivo em uma montanha-russa de sentimentos. E creio que é aí que reside o meu entendimento sobre os relacionamentos. Estou em transição: uma jovem se tornando mulher experiente, uma legítima sonhadora se adaptando a um mundo cada vez mais virtual. Sou apenas uma mas poderia ser tantas que posso afirmar que igual a mim no mundo existem muitas e é para elas que escrevo: para as doces mulheres que se tornaram modernas mas que ainda acreditam nas histórias de amor.”

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