Estar de luto é lutar. É lutar todos os dias para levantar da cama, lutar para achar um motivo para continuar vivo, lutar com uma lágrima que insiste em descer na hora mais inesperada (sim, é mais fácil esconder nossa dor do que explicá-la). Aliás, se tem uma coisa que eu aprendi no luto é que somente quem passou por algo muito semelhante é que pode ao menos compreender um pouco o que a gente sente. Quantas vezes eu desabafei com alguém e me arrependi logo depois por ver que a pessoa não entenderia, por ver que a pessoa acha que ter o pai ou a mãe ausente se equipara à dor de ter o pai ou mãe em outro plano. Eu tive pai totalmente ausente, tive inúmeras dificuldades no relacionamento com minha mãe, mas o que posso garantir é que nenhuma ausência ou dificuldade de relacionamento se compara à ausência definitiva. Saber que nunca mais encontraremos aquela pessoa que tanto amamos, pelo menos não nessa vida, que nunca mais poderemos dar um beijo, um abraço ou pedir desculpas. Desculpas por tantas vezes não termos agido com carinho, por tantas vezes termos sido ausentes também, por tantas vezes o nosso lado humano não ter sido tão humano assim.

Estar de luto é de repente detestar todas as datas comemorativas pelo único motivo de não ter o que se comemorar. Não agora.

É passar a viver nas lembranças. É enxergar a preciosidade dos momentos que tivemos juntos àquela pessoa e que nem sempre foram melhor aproveitados. É buscar explicação para aquilo que não se explica. É querer o impossível ao pedir desesperadamente para que o tempo volte atrás.

É olhar pelo horizonte em busca de respostas, é pedir um sinal e quase sempre não o ter. É lidar com o silêncio. Talvez somente ele explique a morte pois a morte é um silêncio abrupto que nos golpeia de uma forma absurda e por vezes nos tira de órbita por tempo indefinido.

O corpo se vai, os planos feitos juntos se vão, as conversas, o contato, o cotidiano. Somente uma coisa fica. O amor. O amor não morre, o amor não deixa de existir. Ele continua ali, e eu acredito que ele na verdade é o sinal que tanto pedimos. Ele é maior, muito maior, do que as células, do que a ciência e do que é a física. Ele é transcendental. Ele sobrevive apesar de todos os pesares. Ele me faz crer que a morte não é tudo e que existe algo além dela. Ele me faz acreditar na possibilidade do reencontro e que esta separação é apenas uma pausa. O amor me faz sentir que em dia estaremos novamente juntos. Ele dá significado ao luto ao me fazer acreditar que a morte não é o fim.

Imagem de capa: Irina Bg, Shutterstock

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Nat Medeiros
“Sou personagem de uma comédia dramática, de um romance que ainda não aconteceu. Uma desconselheira amorosa, protagonista de desventuras do coração, algumas tristes, outras, engraçadas. Mas todas elas me trouxeram alguma lição. Confesso que a minha vida amorosa não seguiu as histórias dos contos de fada, tampouco os planos de adolescência. Os caminhos foram tortos, íngremes, com muitos altos e baixos e consequentemente com muita emoção. Eu vivo em uma montanha-russa de sentimentos. E creio que é aí que reside o meu entendimento sobre os relacionamentos. Estou em transição: uma jovem se tornando mulher experiente, uma legítima sonhadora se adaptando a um mundo cada vez mais virtual. Sou apenas uma mas poderia ser tantas que posso afirmar que igual a mim no mundo existem muitas e é para elas que escrevo: para as doces mulheres que se tornaram modernas mas que ainda acreditam nas histórias de amor.”

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