A primeira vez que vi Dona Clara ela estava subindo as escadas até o banheiro da academia. Uma estranha no ninho. Em um lugar infestado de roupas e estilos que gritavam conceitos como “performance”; “força”; “evolução pessoal”, ou seja, aquela falsa vida que a publicidade conseguiu implantar cirurgicamente em coisas mortas, ela se escondia tão bem que passava despercebida, se ela fosse uma espiã de outro país ninguém nunca iria desconfiar. Afinal, sua camuflagem era a melhor de todas: a social. Enquanto o ambiente gritava todos aqueles conceitos dos Frankseinsteins de consumo, ela estava por debaixo de um manto neutro, cinza e azul escuro. Um manto que a sociedade nos ensina a ignorar. Em suas costas estava pendurada a explicação “LIMPEZA”, em letras brancas garrafais e semi gastas. No entanto, Dona Clara também gritava de volta, quase como uma resistência. Foi em seu pulso, que conseguia escapar de ser silenciado pelo manto neutro, que eu escutei com os olhos esse grito tão sútil. Um grito que clamava humanidade, por menor que fosse, ainda era algo vivo, uma pulseira azul celeste, da cor daqueles oceanos que prometem a calma à alma. Essa foi a primeira vez que vi Dona Clara, antes que ela escapulisse para sua rota de trabalho. Nos dias seguintes, eu, na minha curiosidade de criança, continuei escutando aquelas pequenas resistências. Amarelo com pintas vermelhas. Um trançado rosa e verde claro. Roxo com pintas laranjas. Cada dia era uma fala diferente. E cada dia que passava a curiosidade aumentava, eu queria saber o nome daquele planeta desconhecido, pois até então, eu não sabia, e além disso, qual mundo era esse que estava tão bem escondido pelas aparências. Alguns dias se passaram até que Dona Clara me abordou perguntando o horário. Até hoje fico feliz por ter usado o relógio de pulso nesse dia. Logo depois eu costurei um comentário com a minha resposta: “engraçado né, estou aqui matando o tempo, mas no final é ele que está me matando”. Foi o suficiente pra ela cair numa risada gostosa de tão irônica que era. E aí, abriu-se uma pequena ponte entre dois mundos completamente diferentes. Dona Clara não sabia mexer direito no celular, mas me ensinou a ler os olhares das pessoas. Dona Clara não leu toneladas de livros sobre preconceito, mas sabia que mesmo que as pessoas à tratassem diferente por ser negra como a noite, ou por carregar aquele manto de invisibilidade, ela tratava todos com o peito aberto, numa ternura que eu não consigo colocar em palavras. Dona Clara não era fluente em quase nenhuma língua. Nem no português. Mas não deixou de me ensinar que as pessoas não falam com palavras, e sim, com energia. Dona Clara não fez faculdade e nem terminou a escola, mas me ensinou que a melhor escola é a da vida, pois, de acordo com ela, “na escola te ensinam o que tem valor pro mundo, a vida te ensina o que tem valor pra ti”. Dona Clara não fez curso de meditação, mas me ensinou que a felicidade só vem quando aprendemos a ser simples. Dona Clara não sabia o que era empatia, mas mesmo assim ela via todas as pessoas como iguais e respeitava as diferenças de cada um. Dona Clara não leu um livro sequer de linguagem, mas no primeiro dia de nossa prosa já me pediu “óia, não usa palavra difícil que eu não vou saber te entender, sempre dá pra falar da vida sem complicar tudo”. Dona Clara me alegrava a cada encontro, e, de acordo com ela, ela adorava nossa “troca”. Dizia que eu ensinava um monte de coisa pra ela, e eu ficava perplexo, porque, pra mim, era eu quem estava sendo o aluno nas nossas conversas profundas de cinco minutos (quase que um remédio necessário pros dois no meio da correria), e mesmo eu falando “Tia, quem me ensina tudo é você”, ela só respondia no tom mais humilde do mundo “aqui a gente troca menino, não tem isso de ensinar”. Dona Clara tornou claro momentos que pra mim estavam nebulosos. Ela me ensinou muito da vida, e me ensinou principalmente que viver é que nem trocar figurinhas, por mais diferente que a gente imagina que a outra pessoa seja, somos todos iguais na essência, pois vivemos e morremos no mesmo mundo, apesar das aparências gritarem o contrário. Aqui sangramos. Aqui sofremos. Aqui vivemos. Nos alegramos e choramos. Todos juntos. Iguais na diferença. Obrigado Dona Clara, esse texto é o álbum de figurinhas que você colou na minha alma, e estou dando pra quem quiser pegar. Que a gente continue trocando nossas angústias e felicidades com todos aqueles que estão dispostos a trocar. Porque “dessa vida a gente não leva nada, então é melhor só deixar coisa boa”, como diria Dona Clara.

Imagem de capa: DenisProduction.com, Shutterstock

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Mike Akama Mazurek
Mike A. Mazurek, formado em Comunicação e Mestrando em Comunicação e Práticas de Consumo, futuro professor e escritor pelo prazer da vida.

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