Sobre um transtorno (a) temporal

Uma tempestade se aproxima e eu me vejo completamente desprevenida.

Não há guarda-chuva, capa, marquise, só a minha pele assustada e cansada.
Eu quero me abrigar em casa… que casa?

Eu quero sair daqui… para onde?

Eu preciso segurar a tua mão… cadê?

Na tempestade, todos os lugares parecem seguros e inalcançáveis demais para quem está de fora. Parece errado correr pelas ruas pedindo que abram suas portas perfeitas, intactas e protegidas para me receber. É como se eu admitisse aos gritos no meio da rua: EU NÃO ESTOU PREPARADA!

As gotas de água caem rasgando minhas emoções, o vento dói e não há nada a fazer além de observá-lo levar todas as minhas certezas e descabelar minhas ideias. Meus pensamentos se assemelham a uma verdadeira tormenta.

Já não sei mais o que é real. Estaria aquele raio prestes a cair bem em cima da minha cabeça? (Por favor…)

As pesadas gotas de chuva turvam minha visão, encharcam minha confiança.

Das janelas embaçadas, as pessoas protegidas nem imaginam o caos que se faz aqui dentro e nem quantos destroços terão que ser dolorosamente removidos quando tudo acabar. Ninguém percebe o meu sinal de alerta.

A força da minha natureza – que eu desconheço, que me assusta – só eu devo enfrentar.

Meu corpo oferece alguns indícios de sobrevivência: a respiração se torna ofegante, a cabeça dói, o estômago se retorce, as pernas perdem a força, os joelhos se recusam a mover.

Eu não sei lidar com dias nublados… Não aceito meus pés se molharem nesse lamaçal, muito menos me inundar de algo tão invasivo.

Eu tento repetir mentalmente: calma, o sol vai aparecer, ele sempre volta… Tenha fé: deus há de mandar bom tempo! Amanhã é outro dia, com outra previsão… Mas daqui a pouco essa tempestade tão familiar se aproxima novamente e eu me vejo completamente desprevenida…

Imagem de capa: Muamu, Shutterstock

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Sabrina Davanzo
Redatora publicitária. Ama Clarice Lispector, filmes e séries (em um relacionamento sério com Netflix), músicas tristes, cachoeira, mar, chocolate, bolo, macarrão, livros, animais e, em especial, o Nino (um vira-lata).

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