Hoje em dia é um desafio estar num relacionamento. Não, espera. Estar num relacionamento sempre foi um desafio, não me leve a mal. Mas nada se compara aos tempos líquidos que vivemos. Temos prospecções nas pontas dos dedos através de aplicativos. Contatinhos no Whatsapp. A coisa ficou de tal forma que dá pra encomendar uma sessão de sexo casual maravilhoso, e essa chega mais rápido (e mais quente) que uma pizza.

Mas para mim, o desafio reina no fato de que vivemos em uma época de contemplação da própria plenitude. Note, eu sempre fui namoradeira. Mas entre meu último relacionamento e o atual, foram mais ou menos uns 6 anos sem uma relação séria. E esse intervalo me deu material o suficiente para entender que eu sou a melhor companhia para mim. Perceba que isso não quer dizer que não possa gozar de outras companhias, mas que a minha foi finalmente reconhecida como a melhor de todas. Até porque não vivo sem ela. Então, além de agradável, é uma questão meio lógica gostar de estar comigo.

Assim, passei a cultivar hábitos saudáveis de ficar de boas no singular. E esse sentimento é muito empoderador. Quando você define que ninguém mais vai te dar felicidade, que você é a principal fonte da sua alegria, o sentimento de tranquilidade que isso te traz é a melhor coisa que se pode fazer pela sua sanidade. E note que quando digo “principal fonte de felicidade”, eu não estou de forma alguma dizendo “única”.

É bom dividir a felicidade com alguém. Muito bom! Mas entender que um relacionamento X ou a pessoa Y não é sua última chance de ser feliz, é simplesmente MARAVILHOSO. Isso deixa tuas decisões mais leves, sabe? Vai namorar? Vai casar? Vai morar junto? “Vamos tentar! Se não der certo, ok, valeu a tentativa. Obrigada, próximo!”. E por um lado essa flexibilidade é muito enriquecedora. A gente não vive mais na época dos nossos pais, onde era feio ser divorciado, separado ou simplesmente solteiro (ou até viúvo). Hoje eu tenho uma pá de amigos nesses estados civis, com ou sem filhos e, pasmem, muito bem resolvidos e amarradões na vida. Divorciada não é mais aquela tia amarga. Divorciada é minha amiga linda que quis mais do que um casamento que já havia acabado – mas a vida dela, não. Entende?

E sim, isso é muito bom porque deixa a gente livre para recomeçar. A porcaria dessa nossa flexibilidade somada com uma “impaciência amorosa”, é que a gente ficou intolerante com a treta. Olhe por mim. Amo aquela gracinha de olhos verdes que chamo de namorado. Ele é, sem sombra de dúvidas, uma das pessoas que mais admiro e que tem todo talento pra ficar velhinho do meu lado. Pois é a criatura dar um chilique maior, por qualquer que seja o motivo, e lá tô eu pensando se não é melhor pular logo fora. Afinal, a minha vida já é bem maravilhosa sem ninguém. Então, não exijo menos que isso nem por 1 minuto.

Porque eu sou dessas que acredita que para namorar comigo, a minha vida que já é maravilhosa, tem que ficar no mínimo sensacional. O meu problema é que isso não acontece o tempo inteiro.

Percebe que loucura? A minha carga emocional de relacionamentos passados, somada com a minha doce aventura de ser plena sozinha faz com que eu não tolere 1 minuto de DR com o cara fantástico que tá do meu lado. Porque na minha cabeça, naquele momento de raiva, eu lembro que fico bem sozinha. Eu lembro que não quero mais o ônus de estar num relacionamento. E nessa paranoia, comprometo o bônus de estar apaixonada. Sim, a louca. Mas quanta gente se encontra nessa mesma condição? Olhe a sua volta. Quem nunca jogou fora a chance de ter alguém legal do lado, pelo simples fato de que esse alguém (humanamente) pisou na bola?

Às vezes a gente acha que alguém tá emperrando o caminho, quando na verdade, a pessoa está mesmo é tentando entrar.

E estar alerta para essa condição de que estamos todos muito impacientes e intolerantes é fundamental. Para que a gente não pegue o caminho da porta sempre que se sentir contrariado(a) ou que as coisas não estiverem bem. Porque relacionamento requer ajuste de contas e recalibração constante. Afinal, são dois universos tentando coexistir sem se anularem.

Essa semana, uma amiga que é uma solteira bem feliz me falou “Antônia, tenho medo de nunca ter um relacionamento pelo jeito que eu sou (=feliz, linda e bem resolvida)”. Falei para ela da minha teoria da “impaciência amorosa”, e de como todos nós estamos muito desconectados, colados nos nossos smartphones, e sem paciência para concessões. Porque atualmente tudo é muito volátil, porque ninguém tem tempo para construir o amor. Ou simplesmente porque o amor próprio ficou grande demais ao ponto de não caber mais ninguém.

Mas falei para ela também sobre a fé que cultivo por todas as coisas lindas da vida. De que quando a vontade de ser feliz a dois bate, a gente arruma paciência para semear e deixar florescer – tira paciência de onde for, mas tira! Porque todas as coisas boas dependem obrigatoriamente de cuidado e paciência. Então a gente vai lá, encara as dificuldades e acredita. E luta contra essa vontade de sair correndo no meio da discussão de casal e correr para o bloquinho de carnaval, que é a melhor época para ser solteiro.

O lance é acreditar que vai brotar um relacionamento bonito e de raízes profundas – e que até quando dá ruim, tudo isso vira adubo para seguirmos juntos e mais fortes.

Agora, se você não está pronto para ter paciência com o amor, bom, aí se joga no carnaval mesmo. Amor é só para os fortes. (Ok, o carnaval também… hehehe).

Fim da sessão.

Imagem de capa: Dusan Petkovic, Shutterstock

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Antônia no Divã
Uma questionadora fervorosa das regras da vida. Viajante viciada em processo de recuperação. Entusiasta da escrita. Uma garota no divã figurado e literal. Autora do blog antonianodiva.com.br.

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