Eu sou apaixonado pelo tema da morte e a cada dia eu percebo mais o quanto ela anda de mãos dadas com a vida, morte e vida são uma coisa só, apesar de muitos ainda acreditarem que não. Com certeza você já deve ter ouvido falar sobre aquela questão que é assustadora para quase todas as pessoas, de que nós morremos um pouquinho a cada dia, ou seja, uma criança recém nascida já é velha o suficiente para a possibilidade da morte.

Em vez de me assustar eu me encanto com essa certeza, sabe por quê? Porque a certeza da morte dá ainda mais sentido para a minha vida! E espero do fundo do meu coração que, ao ler esse texto, você passe a enxergar a morte com mais carinho.

Você também já deve ter pensado a respeito da imortalidade humana, não é mesmo? Ela seria terrível se existisse, e o principal motivo seria a PROCRASTINAÇÃO, que é deixar pra depois tudo aquilo que é importante e precisa ser feito no hoje, no agora. Se nós tivéssemos a certeza de que nunca morreríamos, praticamente deixaríamos tudo pra depois, pois não haveria pressa em si realizar as obrigações, elas sempre poderiam ser adiadas e adiadas…

Outra grande contradição interessantíssima é sobre as situações que levam as pessoas a terem um sentido real para as suas vidas. O que estou querendo dizer é que, em muitos casos, a certeza de uma morte iminente, devido a uma doença degenerativa ou a uma guerra, ou reclusão injusta, como já aconteceu milhares de vezes na história, de pessoas que foram condenadas à morte ou estiveram em uma encruzilhada para morrer a qualquer momento etc. Estas pessoas, quase sempre, encontram um sentido para as suas vidas muito maior do que as que não passaram por tais situações. Em resumo, o sofrimento intenso faz com que elas encontrem um sentido nobre para as suas vidas.

Não posso deixar de citar o grande psiquiatra Victor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, na segunda guerra mundial. Esse homem incrível escreveu um livro chamado “Em busca de sentido”, que conta a sua experiência nestes campos de concentração e como ele encontrou sentido para a sua vida em meio ao caos. Abaixo está o link de uma entrevista feita com ele, em que conta um pouco de sua experiência de vida. Vale muito a pena reservar alguns minutos para assisti-la! Confira…

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Quando temos consciência de que a vida é breve e que nossa finitude é certa, buscamos naturalmente rearranjar nossas prioridades e passamos a buscar cada vez mais o que é essencial, vivendo o momento, vivendo o aqui e agora. Gostei muito das palavras do escritor Victor Lisboa para falar sobre isso. Suas palavras são simples e muito profundas.

“A consciência de nossa mortalidade pode rearranjar nossas prioridades e nos encorajar a não protelar nosso comprometimento com a vida. A percepção da impermanência de tudo pode transformar a forma como nos relacionamos com os outros e com o mundo, além de reestruturar nossa escala pessoal de valores. A compreensão de que certa quota de sofrimento é parte inerente de nossa existência pode estimular o exercício da compaixão por todos os seres vivos, já que todos nós vivenciamos a mesma experiência fundamental de confusão e finitude.

Como um banho de água fria, compreensão de que nossas vidas são finitas tem a vantagem de nos acordar e limpar a sujeira em nossos olhos, eliminando todos os obstáculos que nos impedem de ver o que realmente importa aqui e agora. A permanente consciência de que vamos morrer um dia é capaz de rearranjar nossos valores e prioridades de uma forma mais fiel a nossos princípios e caráter. Já não perdemos tempo nem nos distraímos com coisas que nos desviam do que realmente é importante em nossas vidas.”

Victor Lisboa

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Para concluir e fazer você refletir um pouco mais sobre esse tema tão instigante, compartilho um pequeno texto do mestre Rubem Alves, um texto em que ele compara a nossa vida a uma bacia cheia de jabuticabas, que vão sendo retiradas até sobrarem apenas algumas. Um texto genial de um escritor genial.

O tempo e as jabuticabas- Rubem Alves

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que, apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de ‘confrontação’ onde ‘tiramos fatos a limpo’. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: ‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa!…

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão-somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena.

Imagem de capa: Billion Photos/shutterstock

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Isaias Costa
Bacharel em Física. Mestre em Engenharia Mecânica e Psicanalista clínico. Trabalha como professor de Física e Matemática, mas não deixa de alimentar o seu lado das Humanas estudando a mente humana e seus mistérios, ouvindo seus pacientes e compartilhando conhecimentos em seu blog "Para além do agora", no qual escreve desde 2012.

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