Hoje uma prima querida compartilhou uma foto especial no grupo da família. Ela estava dando uma volta de carro, tentando fazer seu bebê dormir, quando passou pela casa em que eu e meus irmãos moramos na infância. Não se conteve e parou para fotografar. O que se seguiu foi uma onda de nostalgia e emoção, lembranças de um tempo repleto de histórias simples, ordinárias, corriqueiras… mas que de uma forma inimaginável se tornaram extraordinárias.

Nem tudo mora no visível. Nem tudo pode ter seu valor medido através do dinheiro que foi gasto ou da serventia que terá. Jamais conseguiremos mensurar a importância de algo que mora na lembrança e no coração do outro. Há coisas que não valeriam nem um centavo, mas que para você são verdadeiras relíquias. Há vivências que jamais poderiam ser substituídas por uma passagem de primeira classe ou trocadas por uma semana num resort de luxo. Essas são as histórias extraordinárias. Aquelas que nasceram no corriqueiro da vida, mas provocaram encantamento. Provocaram um tipo de arrebatamento que não tem explicação lógica, não se baseia em probabilidades, não pode ser descrito com palavras. Há coisas que nos resgatam do que é terreno e palpável e nos aproximam de Deus. Essas são as coisas mais simples. Essas são as coisas extraordinárias.

Penso que as crianças estão mais próximas do extraordinário. Porque conseguem tocar o eterno com seus bracinhos curtos e sua alma livre. Me recordo que meu filho me pedia um bolo simples de aniversário. Trocaria feliz o bolo de pasta americana pelo bolo de iogurte na fôrma redonda que minha mãe faz. Da mesma forma, eu e minhas primas adorávamos brincar de cabeleireira no quintal da minha casa. Com baldes cheios de água e canequinha, lavávamos os cabelos umas das outras e aquilo tinha muito mais valor que uma tarde no salão chic do shopping.

Quando você começa a entender que o extraordinário está no ordinário da vida, passa a perceber melhor os detalhes. Passa a entender o propósito do cheiro de assado que invade a casa na véspera de natal, passa a valorizar a algazarra das crianças fazendo guerra de travesseiros sobre a sua cama, passa a não se importar com a bagunça que sua casa ficará após a noite de ano novo. Você descobre que nada tem sentido se você não estiver com a alma presente. Nada tem sentido se você não estiver disposto a se tornar vulnerável. Vulnerável a chorar um pouquinho quando aquele tio querido revelar que é seu amigo secreto e você se lembrar das histórias extraordinárias que viveu ao lado dele. Vulnerável ao perceber que a passagem do tempo nos apavora, e é por isso que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

Existe alma em tudo que a gente atribui sentimento. O que ninguém nos conta é que é preciso coragem para mergulhar fundo na existência. Coragem para absorver singelezas, delicadezas, miudezas de tudo que é comum e corriqueiro. Coragem para não se blindar dos eventos que nos alcançam nas horas mais distraídas e que serão lembrados para sempre, quer a gente queira ou não. Coragem para entender que, mesmo que a gente deseje, jamais conseguiremos nos desapegar de algumas histórias. Coragem para descobrir que, se a gente quer que a vida seja realmente extraordinária, isso vai doer um pouquinho, mas esse preço a pagar é muito pequeno diante de tudo que a gente irá ganhar…

Imagem de capa: Pinterest

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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