Há alguns dias estive na minha cidade de origem para a festa de Natal. Fazia exatamente um ano que eu não a visitava, e nos três dias em que estive por lá pude rever casas e ruas da minha infância e relembrar momentos doces que vivi.

Porém, pela primeira vez desde que saí da cidade para fazer faculdade, aos dezessete anos, não senti nostalgia, nem melancolia, nem orfandade. Pela primeira vez me senti feliz por ser filha do interior, por ser cria das Minas Gerais, mas não sofri por ter que retornar ao meu mundo, ao meu jardim, à vida que construí longe dali.

Descobri então que fui modificada. Aos poucos, fui sendo moldada pelas novas paisagens, pelos novos encontros, pelo novo momento. Devagar, bem devagar, deixei as antigas vestes para trás e assumi contornos mais autênticos. Suavemente, me tornei uma pessoa muito mais coerente com meu coração. Serenamente, descobri que aquilo que amamos tem a capacidade de nos transformar.

Você percebe que foi modificado quando aquilo que te afetava tanto não te afeta mais. Quando olha uma fotografia antiga e sente saudade, mas a lembrança não é mais dolorida. Quando escuta uma música que mexia tanto com você e percebe que existem melodias muito mais bonitas. Quando passa a gostar muito mais da realidade que está vivendo do que aquilo que deixou pra trás. Você percebe que está transformado quando não dói mais saber “daquele” alguém. Quando a possibilidade desse alguém ter virado a página já não causa mágoa nem desconforto. Quando percebe que está cercado de pessoas que acrescentam tanto à sua vida que não precisa mais sofrer por aqueles que se despediram. Você descobre que foi modificado quando percebe que a casa onde morou na infância não é tão grande quanto você imaginava, nem que seu pai é tão bravo quanto você pensava, nem que seu amor da adolescência é tão incrível quanto você julgava.

A vida nos apresenta novas chances o tempo todo. Novas chances de amar, de perdoar, de esquecer, de recomeçar. Porém, somente quando amamos pra valer, algo dentro de nós se modifica pra sempre. E com isso sossegamos. Temos paz e tranquilidade. Descobrimos que estamos no lugar certo. Que pertencemos. Que estamos escrevendo nossa história com lucidez e certeza. E isso não nos permite mais olhar pra trás com saudosismo e nostalgia. Aceitamos os passos que demos, reconhecemos as alegrias que tivemos, mas não há mais o desejo de voltar. Não há mais a vontade de perpetuar alegrias esgotadas e memórias desbotadas.

Às vezes a gente gosta tanto de um perfume que, mesmo que ele acabe, continua guardando o frasco com aquele restinho lá no fundo na esperança de que ainda saia um vaporzinho com o aroma conhecido. Porém, um dia somos presenteados com um perfume novo, de fragrância sedutora e acolhedora. E aos poucos vamos percebendo que é hora de desapegar do antigo perfume e começar a valorizar o novo. Hora de decidir que o tempo do velho bálsamo acabou e aprender a enaltecer o aroma presente e suas dádivas.

Somos sempre modificados por aquilo que amamos. Que venha o ano novo e com ele a possibilidade de um dia acordarmos e descobrirmos que já não somos mais os mesmos que se blindavam, se escondiam ou se defendiam da vida e de suas imperfeições. Que a coragem e a leveza nos alcancem, e que a passagem do tempo apazigue dores, mágoas e ressentimentos. Que as histórias ruins sejam encerradas, e que, amando muito alguém ou alguma coisa, possamos deixar pra trás rastros de um passado que não nos representa mais.

Feliz Ano Novo!

Imagem de capa: Site Conti Outra

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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