Hoje ao dar uma primeira passada pelo Facebook, me deparei, sem surpresa, com uma série de postagens de reclamação ou do tipo “eu odeio”. É gente odiando o espírito natalino e as pessoas que só ajudam nessa época do ano; é gente reclamando do cheiro do cachorro do vizinho; gente reclamando do cônjuge que tem ou reclamando por não ter nenhum; reclamação sobre pai ausente; reclamando da política, sem nada fazer para mudar o mundo; é reclamação por ter ficado preso no engarrafamento; é reclamação sobre a novela da Globo, enfim, tanta coisa, que arde os olhos. E, em meio a todas essas postagens, me deparei com uma postagem de uma querida leitora – a quem admiro em segredo – sobre o filho. Ela está passando pelo difícil processo de luto pela perda recente e trágica de um dos filhos. Lendo a postagem dela, eu refleti sobre duas coisas.

Há uns 3 anos atrás eu tive um BIRADS – III septado (cisto no seio com risco cancerígeno médio) e foi uma fase muito difícil. Encarar a palavra “câncer”, ainda que na possibilidade, é a coisa mais agressiva que alguém pode enfrentar. É uma sensação de medo, misturada com impotência, que não se explica. Ali eu me vi sem tudo, me vi deixando a vida; me vi não vendo os meus sobrinhos nascerem; me vi não estando ao lado dos meus pais no momento da passagem deles; me vi não tendo os meus filhos; me vi perdendo o último episódio de The Walking Dead; me vi fazendo as pessoas sofrerem; me vi saindo da vida sem pedir todos os perdões que preciso pedir e sem ter tido tempo para perdoar aqueles que me feriram; me vi nunca mais tomando um sorvete de pistache com calda quente de chocolate; me vi nunca mais vendo os sorrisos de quem eu amo; me vi deixando tudo para trás, desde as coisas mais triviais às mais importantes…

Naquela época eu era outra pessoa. Eu era muito reclamona – ainda sou – mas eu era compulsivamente reclamona. Eu era uma pessoa que enfrentava a vida, eu não amava a vida. Eu era como as pessoas das postagens que li: vivia para reclamar, porque eu achava que a vida não me agradava. Eu estava amargamente insatisfeita com tudo. Meu copo estava sempre meio vazio e nunca meio cheio. Consequentemente, quando veio o BIRADS III, meu impacto inicial foi pensar na morte. Uma tristeza profunda me tomou e eu aceitei que talvez fosse morrer. O fato de o cisto ser septado era assustador, porque dificultava a interpretação médica. Eu não conseguia pensar num objetivo praquilo, além da morte. Acontece que o tempo foi passando, as consultas e exames vieram frequentemente e algo dentro de mim mudou. Eu comecei a ver a minha vida passada como um presente, lembrei-me de que na maior parte do tempo eu fui feliz; era de sorrisos quentes e abraços macios que eu mais me lembrava. Percebi que, na verdade, eu reclamava por hábito e não por necessidade. Eu era uma pessoa muito estressada. Só conseguia ficar atrás do volante se fosse xingando; acordava com raiva de ter que acordar (levava meia hora apenas acordando); se fosse comprar algo e não desse certo, passava o dia emburrada. Realmente, eu não amava a vida. A experiência do BIRRADS me mudou, me mostrou que minha vida foi uma vida muito feliz sim. E comecei a perceber aquela situação como algo necessário para eu me tornar uma pessoa melhor, independente da conclusão da história. Foram 3 meses de médico em médico, exame em exame; e, no fim, Deus me curou. Foi uma cura divina mesmo: um dia a possibilidade de um câncer maligno estava ali e no outro tinha ido embora. SIMPLES ASSIM. Hoje não há o menor sinal de septo ou de lesão e, no início do ano, fui finalmente liberada do acompanhamento semestral. É como se isso, fisicamente, jamais tivesse me acontecido. E eu aprendi a dar graças, apenas por estar viva, por sentir o ar preencher os meus pulmões.

Por outro lado, ver o sofrimento da mãe pela morte do filho, me fez refletir sobre o seguinte: e se perdêssemos hoje tudo aquilo que dizemos nos incomodar? A mãe que pega no pé para que a gente arrume o quarto; o pai que chega emburrado do trabalho e fica calado; o marido que só sabe falar “cadê”; a esposa que fala e fala e fala sem parar; os filhos que choram o tempo todo, se jogam no chão do mercado e nos enchem de gastos; o trabalho com suas agruras tão comuns; as louças encalhadas na pia; o carro com o pneu furado; a cachorro que come todos os sapatos…

Sofremos até mesmo por aquilo que nunca tivemos. Quantas pessoas não sofrem pela falta do amor verdadeiro, sem jamais tê-lo conhecido? Imagine perder as coisas que você conhece, que te acompanham ao longo da vida?

Todas as vezes em que reclamamos sobre aquilo que forma a nossa vida, estamos também representando a sua inutilidade para nós e dizendo que podem ser tirados da nossa vida. Podemos nos chatear e desabafar, mas a reclamação é a queixa persistente a respeito de algo que nos incomoda e se nos incomoda, deve ser retirado de nossas vidas. Portanto, cuidado ao perder o dia alimentando reclamações, eu aprendi a duras penas que elas podem virar câncer.

A vida pode ser uma experiência positiva, dependendo do ponto de vista pelo qual olhamos. Sair do salão de beleza com as unhas feitas; descansar após uma pelada de fim de semana; comer sua refeição preferida; filmar o sorriso dos filhos; ajudar alguém; receber um afago do seu pet. Todas essas pequenas coisas acabam de repente quando morremos, algumas delas a maioria das pessoas sequer têm. Quantas vezes eu dormi afagando a barriga vazia e chorando por não saber se algum dia haveria um filho ali dentro, enquanto tantas desprezam essa relação maior que alguém pode ter na vida e tratam os filhos com displicência. Ouvi alguém dizer que “vivia meu sonho” e, à época, eu era boba demais, imatura demais para não deixar que isso me atingisse, eu deixei doer e veja só, meu sonho estou vivendo agora, como eu sempre quis e imaginei. Aquele momento vivido por esse alguém jamais, nem em 100 anos, seria meu sonho. Meu sonho é minha vida agora, é o meu hoje, é meu Samuel, crescendo dentro do meu ventre, em graça e paz, rodeado pelo meu amor, pelo amor incondicional da minha família e pelo amor puro e ingênuo do pai dele. Meu sonho era uma família legítima e livre de apontamentos. Meu sonho era meu e ninguém jamais poderia vive-lo.

Quando eu me transformei, o mundo ao meu redor se transformou também. Quando eu aprendi a amar a vida, a ser grata por tudo que me aconteceu, pelas pessoas que conheci; as coisas simplesmente aconteceram. Hoje eu não deixo mais a reflexão de vida para o fim do ano, eu a faço diariamente. Todos os dias eu me pergunto como posso ser melhor e tenho evoluído. É muito difícil, mas a graça é essa: nós não precisamos ser sempre os mesmos, podemos e devemos mudar. Mudar é uma capacidade de quem é forte.

Hoje minha prece é para que reclamemos menos e amemos mais a vida, assim, criaremos ao nosso redor as condições que os sonhos precisam para acontecer.

Imagem de capa: UVgreen, Shutterstock

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Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367

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