Por Isabela Nicastro – Sem Travas na Língua
O desapego virou regra número um de qualquer relacionamento. Mal se conhece a pessoa e a premissa básica é: não se apegar. Para não sofrer, para não se enganar, para não se entregar demais. Devido a inúmeros motivos, essa parece ser a melhor opção. Há livros, vídeos, textos e infinitos discursos te aconselhando a praticar o desapego. Na maioria das vezes, não apenas aconselham, mas fazem previsões certeiras:
– Se você não desapegar, vai sofrer.
– O desapego é a saída para evitar desilusões.
– Desapegue e seja feliz.
Na teoria, é lindo. As previsões parecem slogans de campanhas publicitárias de sucesso. Desapego tornou-se sinônimo de felicidade e de realização. Contraditório, não? À medida que você se dispõe a encontrar alguém com quem deseja se relacionar, naturalmente, você precisa estar disposto a se envolver. Toda e qualquer relação, por mais que esteja no início, precisa de doação e de disposição. De ambas as partes, claro.
No entanto, diante da ditadura do desapego, as pessoas ficam cada vez mais receosas em fugir à regra. Quem ousa se apegar recebe olhares espantados, julgamentos e avaliações criteriosas. Por pouco, não são linchados em praça pública. Os que insistem, são combatentes fiéis diante de um cenário de guerra. Preferem seguir o coração, enquanto o padrão exige frieza e superficialidade.
A regra não é válida apenas para aqueles que estão se conhecendo. Mesmo os que possuem um relacionamento há algum tempo, quando terminam, se gabam em dizer: “ainda bem que terminei, antes de começar a me apegar”. Definitivamente, é difícil compreender. As pessoas iniciam relações, trocam status no Facebook, exibem fotos e declarações, porém, afirmam não se apegar. Ou então, depois de diversos encontros, se dão conta de que não pretendem ceder ao apego e colocam fim a algo que nem chegou a começar.
Talvez as coisas não comecem ou não sejam tão intensas quanto as pessoas esperam, justamente porque elas não se deixam apegar. Seguem à risca as regras da ditadura do desapego. Somem depois de alguns encontros, preferem a incerteza dos joguinhos, fogem de algo sério e afirmam, com absoluta certeza, que sentimento é sinal de sofrimento. Cortam pelo raiz, antes que o apego floresça.
Como todo radicalismo, essa ditadura tem tido efeito colateral. Ao invés de evitar o sofrimento, ela o intensifica. Enquanto vivem a evitar a dor, se esquecem de viver. Têm experiências superficiais e nunca se entregam por medo do resultado final. À medida que praticam o desapego, contribuem para reforçar, ainda mais, suas próprias carências. Fogem da solidão para, no final, retornarem a ela.
A necessidade é de libertação e de rebeldia. Afinal, ir contra as regras, muitas vezes, é um mal necessário para a evolução.
Fonte indicada: Sem Travas na Língua
Imagem de capa: Pressmaster, Shutterstock
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