Esse comentário deixado por uma leitora sob um texto que eu havia escrito, parecia solto, desgarrado do contexto, mas eu entendi: ele veio de encontro ao meu sentimento dominante.

E se veio de encontro ao meu sentimento, sem que a outra pessoa soubesse, veio do céu. Uma coisa puxa a outra.

Eu estou experimentando uma semana extremamente focada no mecanismo “rolo compressor” dessa vida. Um olhar generoso e mais demorado sobre as misérias deste mundo. Sempre faço isso. Mas desta vez parece que a miséria me segue em exposição catalogada.

Fui ao supermercado e me deparei com um jovenzinho cujo pai morreu de maneira trágica. Naquele momento, fui capturada. Notei o semblante entristecido, o rostinho compenetrado, e a seriedade absoluta com que ele ajudava a mãe a fazerem as compras da casa.
Triste de doer.

Senti vontade de abraçar o menino, eu que sou mãe de todos os meninos, já que perdi o meu. Mas, não o fiz. Não por falta de vontade, mas por entender que aquele abraço era fora de hora, e acentuaria nele o sentimento de perda. O abraço faria bem para mim, mas provavelmente não faria bem para ele.

Eu já estava no caixa, de modo que peguei as compras, entrei no carro e chorei. Chorei de verdade. Eu nunca choro pela morte em si. Choro por não conseguir compreender o propósito de determinada morte. Ha mortes que são belas e consequentes. Vive-se uma vida inteira, cumpre-se a missão e então, se morre.

Que beleza! Essa morte se encaixa com perfeição nessa vida fora do Jardim do Eden.

Um dia, a gente tem que voltar para casa.
Depois de cumprir a jornada.
Depois de se aprontar.
Depois de ficar feio por fora e se enfeitar por dentro.
Depois de tornar o mundo um bocadinho melhor.

Foi assim com meu pai, e com a minha mãe. Mas não foi assim com o meu filho. E não foi assim com o pai daquele garoto. Sai dali e me deparei com o representante de uma família que não é exatamente aquela que cabe num comercial de margarina.

Um casal super gente boa! Solícitos e gentis! Fieis ao seu propósito original. Ambos não se desviaram da missão que receberam.
Mas…. tudo deu errado!

Não pela morte, que afinal, a morte não é a mãe de todos os erros, é apenas a madrasta má. Tudo deu errado porque os filhos não se encaixaram no modelo que a sociedade determina.

Nenhum deles se desgarrou da família original.
Nenhum deles trabalha.
Nenhum deles tem um ofício.

E esses dados, a partir de determinada idade, demonstram que pai e mãe continuam sendo tão indispensáveis que não têm o direito de se mudar para uma casa menor, de escolher morar na praia, de comer de marmita, de gastar um pouquinho da poupança, de esvaziar o cesto de roupa suja, e até de morrer.

Como morrer, sabendo que os filhos ficarão avulsos de abrigo e de afetos?

Até para morrer o homem precisa encontrar a liberdade de saber que, sem ele, a vida vai continuar. Que ninguém vai morrer de fome. E nem de frio. E nem por falta de teto.

Depois, tropecei num cachorro sarnento que tentava se proteger do frio, deitado num capacho, na porta de um escritório de contabilidade. Era o meu caminho. Eu tinha que entrar no escritório e falar com o profissional. Havia fila e eu tive que me sentar e aguardar.

Aguardei, olhando para o cachorrinho, era um cãozinho preto, feio, de olhos apertados e lacrimejantes, orelhas caídas, e cauda curta.
O cachorrinho era o retrato da miséria humana. Por que humana?

Porque ninguém o enxergava. Ninguém via o seu sofrimento feito de fome e e de coceira esparramada. Nunca tive sarna, mas imagino que deva incomodar pra caramba. O que fazer?

Liguei para a minha filha Silvia, mãe de todos os animais. Narrei a visão, e estranhamente, ela me respondeu:

-Mãe, finge que não viu! Não posso socorrer todos os animais desta cidade, não dou conta. Ninguém enxerga, só eu?

Ela estava profundamente abatida. Desiludida com a humanidade que enxerga, mas não vê o sofrimento de um animal.

Depois, esbarrei num vendedor de sobremesas. Carregava uma cesta enorme. Um olhar atento me fez reconhece-lo. Havia sido funcionário de uma empresa que fechou. Teve carteira assinada, e trabalho fixo. Hoje, vende sobremesas, de porta em porta. Corri atrás dele e comprei 4 potes.

Cheguei em casa derreada. O que é derreada? Sei lá, mas é a palavra que melhor me ocorre para descrever o peso do mundo. Na maçaneta da porta da minha cozinha, um sacola com pão quente. Um agrado da minha vizinha querida, Janaina.

Era hora do café. Fiz o café, comi o pão. Me levantei, peguei dois potes da sobremesa, coloquei na sacola, pendurei na maçaneta da porta da cozinha dela, e fui tratar do meu gato que estava me olhando, pedindo comida.

O danadinho só come ração fresquinha. Tenho que colocar meia xícara de café, a cada duas horas. O que sobra, ele refuga. Sorte a desse gato. O cachorrinho preto só conheceu o infortúnio. Assim é a vida: Nem todos são vencedores.

Mas eu também creio, assim como a minha leitora, que “cada um de nós carrega uma desilusão, seja de que tamanho for.” Até os vencedores.

Imagem de capa: Kichigin, Shutterstock

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Ana Maria Ribas Bernardelli
Estudante de humanas-idades, cidadã do céu e da terra, escritora por compulsão, leitora de letras, de pontos, de reticências, e de linhas, interventora de paisagens, solitária por opção, gregária por necessidade, gosto de músicas, filmes em que só as pessoas acontecem, documentários, biografias, e todas as obras de Clarice Lispector e de Watchman Nee. Vivo a espiritualidade, sem religião. Não tenho afinidades com rituais e com scripts que se repetem. Amo a liberdade, os animais, as plantas, os velhos, as crianças, e todos os seres que se sentem estranhos no ninho. Fujo de superficialidaes, e não tolero nenhum tipo de injustiça, crueldade, ou tirania. Adoro a Deus e a ele quero servir. Escrevo para organizar a vida, para aguentar o tranco, e em cada texto meu, você me encontrará. Espero que eu também lhe encontre no meu email, no meu site, e nos meus endereços nas redes sociais. Feliz por estar com vocês!

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