Imagem de capa: eldar nurkovic, Shutterstock
Às vezes, parece que, para sobrevivermos emocionalmente, a melhor opção é nos alienarmos, mesmo que sazonalmente, de algumas realidades. Assistir TV quase sempre destrói as esperanças no ser humano, ler as manchetes dos principais jornais e revistas é alimentar e reforçar o sensacionalismo. Opinar é lançar-se à jaula dos leões.
Tudo o que soa dissonante é imediatamente rechaçado e as reações são tão díspares que fica difícil acreditar que elas são provenientes da mesma origem. Mas, existe explicação para isso: a leitura do mundo nunca acontece antes de que as informações passem pelo crivo histórico e emocional de seu leitor. A interpretação é quase sempre tendenciosa e contaminada de si mesmo e, em nossa falta de humildade, quem interpreta diferente é considerado ignorante, é aquele que não entendeu, aquele com capacidade inferior.
Quando, entretanto, não vemos a diferença como uma afronta pessoal, as situações ficam leves e até cômicas. Uma dinâmica que eu inventei inspirada em técnicas projetivas e que, por gostar dos resultados, sempre usava em grupos era assim: Uma imagem da Monalisa era projetada na parede e eu pedia para que as pessoas pensassem consigo mesmas “Quando você vê a Monalisa, você acha que ela tem cara de quê? Que tipo de sentimentos ela transmite?”.
A questão não era saber quem pintou o quadro, as curiosidades que o envolviam, se alguém já o tinha visto pessoalmente ou não. O enfoque era um olhar pessoal e emocional. Como devem ter percebido, a própria pergunta que era feita já era feita de maneira leve para deixar fluir o que quer que viesse em resposta. Não existia certo ou errado.
Muitas vezes, pela primeira vez, as pessoas olhavam para um dos quadros mais famosos do mundo e pensavam na mulher “Monalisa” e no que ela transmitia a cada um e, como era de se esperar, eu ouvia uma infinidade de respostas para o que ela representava a cada um. Assim, a atividade acabava sendo, além de um exercício de observação, reconhecimento e respeito à diferença do olhar do outro, um grande momento lúdico e de descontração.
Do ponto de vista pessoal, meu interesse pelas pessoas costuma ser inversamente proporcional aos títulos que exaltam, as grandes verdades que apregoam e aos “amigos” que exibem. Creio que não há nada mais pobre do que alguém que precisa se valer de sua titulação para fazer uma afirmativa. Vejo com desconfiança a segurança emocional de quem usa de estratégias como essas para ornamentar seus nomes ou quer ter artistas para decorar suas fotos.
Entre os extremos, o caminho do meio tem se tornado uma estrada deserta, cena de filme de faroeste, onde rolam bolas de feno. Chego a ouvir a música de fundo.
Preocupa-me também a surdez para com as entrelinhas. As pessoas estão tão fechadas em si e em suas visões de mundo que reagem mais a si mesmas que ao outro. É um efeito espelho. E, se a pessoa olha para o outro e só vê a si mesma, dificilmente perceberá as nuanças da relação. Os detalhes da fala, dos lapsos, da postura corporal, da mudança no tom de voz – que pode ser para mais sincera declaração de amor ou para a mais sagaz ironia, e, principalmente, do momento do outro que pode, no mínimo, merecer o respeito que a vivência em sociedade determina.
Para tentar ver o outro na maior completude possível, é necessário desligar-se um pouco de si, de suas convicções. Não é preciso olhar muito para perceber que a maioria das pessoas supervaloriza as suas próprias opiniões e gostos. É necessário sair da arrogância para ler um texto que vai além de um erro de digitação ou grafia. Quem lê um texto é só enxerga o “s” onde deveria haver o “z” me lembra aquelas pessoas que olham para alguém que carrega uma deficiência e só veem um “defeito”, não um ser humano. Será que não se pode corrigir sem o véu da superioridade?
É necessário o exercício da sensibilidade para enxergar o contexto, a mensagem maior, a realidade que vai além do espelho. Por mais lindo que seja o nosso próprio reflexo, sempre haverá mais beleza e verdade em uma paisagem completa.
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