Categories: Diego Engenho Novo

A gente mata um pedaço da gente

A gente mata um pedaço da gente quando deixamos passar o que é mais emergencial e inadiável em nós. A gente mata um pedaço da gente quando calamos a vontade de dizer, quando nos envergonhamos da nossa vulnerabilidade e represamos nossas lágrimas com um erguer bonito de queixo. A gente mata um pedaço da gente quando cambiamos o desiludir dos sonhos dos outros pela desilusão desportiva dos nossos.

A gente mata um pedaço da gente quando dividimos refeições por educação, quando transamos em troca de falsa autoestima, quando beijamos pra sarar o medo de ficar sozinho: o nosso e o dos outros. E no afã inútil de não ferir ninguém, e no desespero de salvar a nós mesmos, a gente vai se matando lentamente.

A gente mata um pedaço da gente a cada novo arrependimento sem tentativa, a cada vez que nos dizemos não sem motivo real. A gente mata um pedaço da gente quando deixamos o medo tomar o guidão e pegar embalo. A gente mata um pedaço da gente quando nos obrigamos a sair de casa, mas nossa vontade é apenas chorar ouvindo um disco da Gal.

Um dia alguém ensinou que é preciso lutar contra a tristeza que mora em nós. Levianamente não nos disseram que às vezes ela precisa ser vivida e não contornada como um copo quebrado no chão. Vez ou outra, é preciso atravessá-las devagar, com um respeito solene. A gente mata um pedaço da gente porque esquecemos que sentimento nenhum é acidental.

E assim, a gente vai matando um pedaço da gente até não restar mais pedaço nenhum pra juntar.

Diego Engenho Novo

Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

Share
Published by
Diego Engenho Novo

Recent Posts

Viver é uma tarefa muito maior que sobreviver

Uma coisa que eu amo em viajar é que quando saímos do cenário habitual, conseguimos…

1 mês ago

O maior souvenir de uma viagem é a versão de nós mesmos que a gente traz de volta

Andei afastada de mim. Sem energia e desconfiada de minhas percepções, do modo como me…

1 mês ago

Attraversiamo: vamos atravessar

No final de Comer, Rezar, Amar, Liz Gilbert diz: “Eu escolhi a minha palavra: Attraversiamo. Significa: ‘vamos…

1 mês ago

Há alegrias que duram menos que um verão e, ainda assim, atravessam a vida inteira

Após assistir ao filme "A vida de Chuck", inspirado em um conto de Stephen King,…

1 mês ago

Os Benefícios de Ter Hobbies Online: Apostas e Jogos com Equilíbrio

Nos dias de hoje, os hobbies online fazem cada vez mais parte da rotina de…

4 meses ago

Como os Jogos Online Podem Estimular a Mente

Durante muito tempo, os jogos online foram vistos apenas como uma forma de entretenimento leve,…

4 meses ago