Desculpa chegar, depois de tanto tempo, como se ele, o tempo, não tivesse atravessado à nossa frente, forasteiro. Como se muitas noites não tivessem me feito companhia antes dessa. Como se eu não tivesse, por tantas vezes, inventando caminhos e motivos novos para não passar à sua porta. É engraçado cultivar esse quase medo dos lugares onde a gente foi tão feliz.

Talvez você nem more mais no número dois-sete-meia da avenida. Depois de tantos meses daria pra você ter se mudado de país e aprendido outra língua, daria pra você ter largado o escritório e se tornado cuidador de cavalos. Todo esse tempo seria suficiente para abraçar uma vida, embora não tenha sido suficiente ainda pra mudar o que sinto por você.

“Só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto”

E quando o interfone tocar, ao contrário de meses atrás, minha imagem não será seu primeiro pensamento. Poderia ser uma reclamação mal-humorada vinda do andar debaixo, a entrega da comida que sempre chega fria mesmo vinda da esquina, ou um amigo pedindo sofá para se curar da bebida. Mas dessa vez, querido, quando o interfone tocar, serei eu, me convidando outra vez para entrar na sua vida. Eu em minha eterna entrega pra tudo que vem de você.

E naqueles dois segundos após o abrir da porta, serão meus olhos inundando você num misto de curiosidade, saudade, dúvida e dívidas. As marcas de sol que revelam mais idas ao litoral, os cabelos por cortar mostrando que você está mergulhado em seu novo livro, uns quilos a mais contando de suas idas acompanhado ao restaurante que a gente adorava, uns quilos a menos dedurando que você finalmente tirou seu plano da gaveta de aprender a correr. Eu sei que é horrível dizer, mas sim, seria respeitoso da sua parte não ter vivido maravilhosamente bem sem mim.

E meio que sem jeito eu tentaria parecer confortável, e desconfortavelmente tentaria transparecer uma paz que não tenho, desde que nos despedimos pela última vez. E depois de tantos meses eu voltaria com algo seu embaixo do braço como desculpa, só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto. Porque foi exatamente assim que me apaixonei por você.

Diego Engenho Novo

Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

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