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Procura-se gente imperfeita

Vanessa não conseguia se encantar por ninguém desde que saiu do seu último namoro. E lá se iam quase dois anos de uma solteirice tranquila e séries em dia. Ela até queria. Contou pra mim que queria mesmo se apaixonar. Não havia ali um esforço partidário para acordar todas as manhãs agarrada ao travesseiro. Faltava homem no mercado. E não homens de qualidades, mas caras com bons defeitos, caras reais.

Bastavam alguns drinks para o mocinho bonito começar a falar sem parar de si, sobre como ganhava bem, sobre todos os lugares que tinha conhecido, sobre como se alimentava direitinho. No drink seguinte ela já estava entediada. Primeiro porque não conseguia acreditar. Por trás daquelas palavras vinha também a sensação de estar diante de mais um moço geração Y tentando agradar. A si mesmo, por sinal. Segundo porque se fosse mesmo verdade, seria um saco tentar acompanhar tanta perfeição.

Com gente sonhando tão alto, sua labirintite andava atacada. Cadê os caras que batiam ponto das 8 às 18? Cadê os caras que tinham feito escolhas erradas? Ou ela era a única pessoa deslocada pairando sobre o mundo? Foi aí que conheceu Diogo. De chinelos na fila do supermercado. E achou adorável que ele lhe sugerisse um azeite bem mais barato e melhor do que o que ela estava levando – O que importa é o PH – explicou. Foram andando juntos.

Tempo suficiente para ele lhe contar que estava desempregado, sem desespero, mas estava. Tempo suficiente para lhe contar que adorava ficar em casa rindo de programas bobos de TV e brincando com sua cadela Suki. Tempo suficiente para que ele a deixasse falar e a ouvisse de verdade. No final das contas, ela estava encantada. O primeiro cara real em muito tempo.

Não era uma apologia aos ferrados, nem preconceito com quem se deu bem, mas mesmo as pessoas que têm tudo sentem falta de algo. Era isso que ela queria ver, a fragilidade doce por trás dele. Suas lutas, suas inseguranças, sem medo de se mostrar. Ela não queria se encantar pelas ilusões dos outros. A simplicidade seduz em tempos de tantas luzes. Encantou-se pelo verdadeiro e único Diogo.

Diego Engenho Novo

Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

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  • Adorei, me sinto como a personagem, só encontro caras vazios de conteúdo, que só conta vantagens do que possui, mas agora sei que não sou a única que pensa assim..

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Diego Engenho Novo

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