Por Isabela Nicastro – Sem Travas na Língua
Ando perdendo tempo. Deixando com que ele passe, sem me preocupar com as horas, minutos e segundos gastos com absolutamente nada. É um aprendizado diário. Não é fácil acostumar-se a perder. Principalmente o tempo, diante de uma realidade em que cada milésimo de segundo é visto como lucro e sinônimo de sucesso. No entanto, aprender a “perder tempo” não significa, de forma alguma, deixar de se importar. Pelo contrário, é aprender a importar-se com o que realmente importa.
Passo os finais de semana de pijama, vendo novela, filme ou qualquer coisa sem muita importância na televisão. Nada que me faça pensar muito, aliás. Troco o desejo por estudar outro idioma ou engatar algum curso depois do expediente para ficar de bobeira em casa. Deixo a geladeira cheia de verduras e saio para comer coxinha em plena segunda-feira. Escolho cumprir horários no trabalho e não ultrapassá-los apenas para dar uma falsa ideia de competência. Abandono os almoços de dez minutos para emendar um cochilo de meia hora. E assim, a cada dia, “perco” mais tempo.
Passei a priorizar algumas coisas que antes me eram secundárias. Uma conversa, um abraço demorado, a companhia para um jantar. Na minha lista de prioridades, o trabalho e as obrigações diárias ainda estão inclusas. Afinal, a mania de perfeição e o desejo por me dedicar são intrínsecos a mim. No entanto, há outras questões muito mais importantes que ocupam o topo da lista.
Por exemplo, há um bom tempo atrás, em uma segunda-feira de pré-vestibular, enquanto eu estava atarefada em colocar os estudos em dia, meus avós chegaram para uma visita. Ao mesmo tempo em que queria aproveitar a presença deles, me sentia culpada por ter abandonado os estudos. Conclusão: não consegui nem estudar direito e muito menos aproveitar a visita deliciosa dos dois. Na preocupação em cumprir as obrigações, esqueci de valorizar o que realmente importava.
Depois disso e de outras situações parecidas, passei a não ter mais orgulho de uma agenda cheia. A não me orgulhar de dizer às pessoas: “não podemos nos encontrar porque estou com muita coisa para fazer” ou “é tanta correria , não é?” Mudei a minha visão sobre competência. Sempre considerei as pessoas atarefadas e cheias de compromissos como muito competentes. Seriam elas o futuro. Os bem-sucedidos, os capacitados. No entanto, foi o próprio tempo o responsável por me mostrar o contrário. Ainda bem.
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