Enquanto escrevo este texto você luta pela vida em um leito longe de suas orquídeas, de seu quintal, de seu fogão.

É vó, a vida aprendeu a ser colorida a seu lado, e o que seriam os dias sem o cheiro de bolo de fubá com erva doce e pudim de leite condensado derretendo na boca?

Estou só. Longe da sua risada espontânea e do toque suave de suas mãos que tanto me aquecem, só a lembrança me faz sorrir.

Aos poucos percebo que uma avó é fagulha de tempo; presente precioso guardado para alguns poucos afortunados como eu; cafuné sem pressa e café com biscoitos nas primeiras horas da manhã.

Ao lhe telefonar já espero o “tati-bitati” costumeiro do outro lado da linha. Ainda me trata como seu bebê, mesmo que já tenha amadurecido tempo demais.

Peço a Deus que me conceda mais tempo ao seu lado. Preciso aprender aquelas receitas antigas_ do pão de queijo especial, do biscoito mineiro, da broinha de fubá…_ e sinto que não houve tempo de discutirmos o ponto da calda do pudim ou a temperatura do forno para o bolo sair exatamente como o seu.

Não tive tempo de aprender as receitas do mesmo modo que não perguntei como cuida de suas orquídeas para elas florirem tanto (certamente você dirá: “com amor”…).

Ainda quero te abraçar mais, sentir seu cheiro, compartilhar do seu batom. Quero admirar seus olhos verdes combinando com a cor da blusa, e elogiar seu cabelo, que teima em ser farto onde me faltam os fios.

Quero aprender mais acerca da alegria e liberdade, e admirar sua coragem ao desbravar a rigidez da vida. Quero saborear aquela nossa cervejinha gelada e brindar sua alegria e vivacidade.

Hoje eu só lhe peço uma coisa: Volta logo pra casa!

Vem cuidar do seu jardim e encher os cômodos com cheiro de pizza caseira coberta com molho de tomate. Vem me receber na varanda e acenar no portão. Vem atender ao telefone mudando a voz quando descobre que quem liga sou eu, e sentar no tapete da sala rindo de alguma bobagem sem importância.

Obrigada Vó querida, pelo amor que despertou em mim. Obrigada pela sabedoria com que soube amar e abraçar os seus. Você me ensinou o valor de amar sem preconceitos, e isso vou guardar por toda a vida!

Obrigada por existir, e principalmente por me permitir experimentar seu colo salpicado de farinha e seu amor …

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

2 COMENTÁRIOS

  1. Sei como é isso! Minha vó é minha melhor amiga. Por mais que ela more em outro estado, toda semana fazemos questão de nos falarmos e contar as novidades. Ela é minha confidente e conselheira. Meu Presente!

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