Outro dia, assistindo ao filme “Como água para chocolate”, uma cena, entre tantas, chamou minha atenção. Tita, a mocinha, fazia o bolo de casamento de sua irmã, e durante o preparo, deixou cair uma lágrima dentro da massa do bolo. O resultado foi que, durante a festa de casamento, todos os convidados que provaram o bolo imediatamente começaram a lembrar de seus amores desfeitos e a chorar.

Tita, como a maioria das mulheres, não se censurava por chorar. Sabia que suas lágrimas eram a forma da tristeza desaguar. A tristeza que fazia parte dela, mas que não era ela. Tita não era triste. Ao contrário, transbordava amor, alegria e jovialidade. E justamente por ter tanta alegria e força dentro de si, chorava. Se transformava em lágrimas e enxugava seu pranto com afeto. O mesmo afeto com que cozinhava.

É um provérbio irlandês que diz: “As lágrimas derramadas são amargas, mas mais amargas são as que não se derramam”. Pois reprimir nossas emoções é afundar ainda mais naquilo que causa dor.

É preciso clarear os olhos e limpar a garganta. Deixar a emoção transformar-se em rio e assim correr pela face. Despir-se de razões e permitir-se ser mais humano.

Confesso que já segurei muito choro. Foi tempo de não dar bandeira pelo fim de um romance ou de assistir a um filme ao lado de minha mãe e, na minha imaturidade, acusar o pranto dela de exagerado (quando eu mesma carregava um nó na garganta).

Mas a gente amadurece. E descobre o quanto é mais forte quando aprende a chorar. O quanto é mais equilibrado quando consegue exteriorizar a emoção através das lágrimas.

A fragilidade contida numa lágrima não diminui a força de quem chora. Ao contrário, ao revelar sua vulnerabilidade, mostra também sua capacidade de reagir com delicadeza e sensibilidade. A capacidade de ser rocha e flor.

Há tempo pra tudo. Tempo de ser deserto ou chuva grossa. Tempo de ser orvalho na janela dos olhos ou terra seca na aridez dos dias. Tempo de despertar sorrindo ou desaguar em lágrimas fartas. Tempo de ser grato sorrindo, tempo de ser fortaleza chorando. Tempo de diminuir a rigidez dos ombros, a censura das palavras, a secura do pensamento. Tempo de aprender a ser rio, chuva, banho de cachoeira ou água do mar.

Tempo de conseguir ser sal quando tudo é ventania. Tempo de desaguar delicadeza, transformando tudo em poesia.

Tita, a personagem do filme, me ensinou. Ensinou a colocar amor em tudo, mesmo que o amor venha em forma de lágrimas. Lágrimas bonitas, que denunciam o quanto somos capazes de amar, mesmo que a relação não tenha dado certo. Mas ainda assim, um sentimento vivo que se fez presente dentro de nós.

Lágrimas também são vida, a materialização de nossa existência, da capacidade de nos importarmos com o mundo que nos rodeia. Expressão máxima da nossa sensibilidade, do quanto o mundo nos afeta ou toca.

Que possamos permitir que a vida seja recontada de uma forma mais delicada, autorizando nosso pranto e reagindo com menos rigidez ao mundo que nos cerca.

Que o sal da vida venha temperar nossa existência com simplicidade e sabor. Que os lenços oferecidos sejam motivos de aproximação e acolhida, e que as lágrimas enxugadas sejam a lembrança de nossa humanidade e verdade.

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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