“Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas planas surtem o mesmo efeito que muitos dias de sol seguidos: podem até ser agradáveis, mas são certamente entediantes. Não há nada para aprender com quem nunca se arriscou. Nada a dividir com quem jamais saiu da segurança do previsível.
O que desperta a curiosidade, suscita encantamento, não é a simpatia avassaladora ou a educação exemplar. O que faz nascer um certo feitiço é a falta de obviedade. Não é à toa que os mitos não nascem de águas calmas, mas sim da dualidade, da pouca incidência de clareza sobre fatos e entes: ninguém fica embasbacado pela simplicidade do seu Zé da quitanda. No máximo, enternecido. Podemos dar educados boas-tardes diariamente, mas ele jamais será tema de conversas. Jamais sairá da quitanda.
Somos inerentemente fascinados pelo que não entendemos, amamos o desconhecido com um amor tão lancinante quanto arriscado — por isso mergulha-se à noite, escala-se o Himalaia, doma-se leões, come-se fora de casa. São todas tentativas de descobrir temperos que despertem o paladar em vidas insípidas. Por isso amantes são vitais para homens obtusos, que pensam conhecer cada detalhe de suas mulheres e se entediam com eles (e mal sabem como são enganados por sua própria falta de visão): o terceiro elemento incita a conquista, os faz ser, pelo menos por alguns dias, homens mais interessantes. Escondidos atrás dessa muleta emocional, sentem-se especiais por ter um segredo a esconder, algo só seu.
É pela nossa atração intrínseca pelo incompreensível, busca pelo indomável, que mulheres boazinhas são repetidamente abandonadas e trocadas pelas garotas más, que vivem como bem querem e fazem dos homens o que bem quiserem. Por isso os vilões são mais tesudos que os mocinhos: é só quando ultrapassamos a barreira do familiar, do seguro, que nos tornamos verdadeiramente pessoas. Menos ingênuas, mas completas. Mais complicadas, mas com um impagável autoconhecimento. Um tanto inescrutáveis, o que pode incomodar os rasos, mas infinitamente mais interessantes.
Ter segredos é efeito de viver intensamente, a prova de que a realidade pode ser muito maior e significativa do que nossos forçados sorrisos de bom-dia, o escritório claustrofóbico, o saldo negativo. É ter coragem de arcar com o peso de ser único, independentemente de nossos atos serem louváveis ou não, aprovados ou não. É preferir guardar para si o que causaria estrago em alguém, não por medo, mas por carinho.
Quem não se arrisca, não faz besteira e não erra, não vive, apenas desperdiça o sagrado tempo que deveria ser aproveitado com paixão. Apenas caminha, sem deixar pegadas, sobre os dias, rumo à morte.”
Ailin Aleixo
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