Tenho dificuldade em lidar com pessoas que se fazem de vítimas. Tenho preguiça de conviver com gente que não assume seus erros e aponta o dedo para o outro, atribuindo-lhe a culpa pela maioria de suas dificuldades e fracassos.

Infelizmente tenho me deparado com gente assim. Gente com cheiro de naftalina que culpa o passado pelas dores do presente. Gente que não areja a casa, não abre as janelas e não perfuma o ar.

A culpa não é do mundo. A culpa não é do outro. A culpa não é sua. Mas está em suas mãos transformar o que quer que esteja lhe incomodando. Está em suas mãos encontrar recursos que possam lhe tirar da tristeza, do desânimo, da depressão. Que você busque ajuda, vá ao médico, tome um medicamento. Que você ore, medite, entregue seus caminhos a Deus. Que você corra, pedale, nade. Que você aprenda uma língua nova ou vá cuidar de um jardim. Que você viaje ou prepare aquela receita afrodisíaca da internet. Mas que entenda que não pode apontar o dedo na cara de ninguém, nem dizer que é infeliz por culpa deste ou daquele.

Todo mundo carrega dores, fissuras, danos. O que torna alguns mais leves que os outros é a capacidade de lidar com o que restou. A capacidade de transformar os cacos em novos vitrais. A capacidade de olhar para frente e encarar com otimismo o que virá.

De vez em quando a gente tem que lavar o corpo e ensaboar a alma. Deixar a água escorrer pela pele e levar embora o que não enobrece. Lavar o que diminui e escorrer o que empobrece. Limpar os recantos da dúvida e perfumar a pele com a clareza do hoje. Limpar, arejar, lavar, renovar.

Nem sempre nosso balde está cheio daquilo que a gente deseja. A temperatura da água pode estar abaixo ou acima do que a gente gosta, e o sabão não faz a espuma que a gente acha que merece. Mas quem disse que tudo correria conforme o planejado? Quem disse que pra viver não seria necessário uma boa dose de humildade? Então tome posse do que lhe foi reservado, e dê graças a Deus por ainda existirem possibilidades. Lave, ensaboe, deixe escorrer e limpar…

Que você faça as pazes consigo mesmo e perdoe o passado. Que perceba que é o único responsável por sua alegria e satisfação, e assim possa sentir-se pleno mesmo que as coisas não caminhem conforme a sua vontade. Que encontre seu tamanho no mundo, sem supervalorizar suas dores, seus traumas, seus rancores.

E que, lavando o cheiro de ontem, abra espaço para novos perfumes, alegrias inéditas que só quem se ama de verdade autoriza-se experimentar…

* Imagem: Katrina Parry

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

4 COMENTÁRIOS

  1. Realmente seus textos são geniais !!! Parabéns!!!
    Sou advogada ,mas adoro ler estes tipos de textos como os seus.
    Aliás eu estava lendo um que é sobre a Educação e não achei mais !!!
    Como poderia ter este link?
    Obrigada
    Rosa Lia

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