Alguns enredos comovem pela simplicidade. Por andarem lado a lado com a existência, dando significado àquilo que poderia ser retratado como um acontecimento banal. Por falar de nós a nós mesmos, decifrando com sensibilidade o que vivemos e sentimos rotineiramente, traduzindo em sons e imagens aquilo de que é feita a vida _ uma sequência de acertos, desacertos e desafios que experimentamos diariamente _ modulados pela inexorável passagem do tempo.

Um pouco atrasada, assisti ao filme “Boyhood _ Da infância à juventude” durante o carnaval. Não falaria do filme aqui se não tivesse sido completamente arrebatada por sua simplicidade. E apesar das inúmeras publicações, resenhas e críticas ao filme, ainda assim senti-me impulsionada a deixar minha impressão.

Qualquer história carrega um pouco de nós. E Boyhood faz isso de forma primorosa, ao permitir-nos revisitar um pouco do que fomos e do que vivemos enquanto o tempo passava e simplesmente crescíamos.

Boyhood é um filme sensível, para pessoas sensíveis. Não é para ser assistido esperando grandes feitos, além da constatação de que o tempo está moldando cada um dos atores e personagens externa e internamente, como acontece conosco, em nossas vidas. Talvez seja esse o legado que Linklater, diretor e roteirista do longa, queira deixar: o de que a vida é sim uma sequência de pequenos gestos e narrativas que juntas formam um mosaico, ao mesmo tempo comum e fascinante.

Estamos habituados a esperar demais da vida, e nesse sentido Boyhood pode ser facilmente descartado por não revelar além de nós mesmos e de nossos conflitos tão rotineiros.
Mas então descobrimos, com Linklater e seus personagens, que a magia não está no fundo do oceano ou no topo de uma montanha. A magia está naquilo que vivenciamos e superamos a cada dia, nos recomeços, nas despedidas, nos encontros e reencontros.

Na simplicidade do diálogo do menino de seis anos com a mãe:
 “_ Adivinha mãe. Descobri de onde vem as moscas.
 _ É? De onde?
 _ Bem, acho que deve ser… Se você colocar uma minhoca ali, no lugar certo, vai virar uma mosca.
 _ Que legal…”

No desabafo cheio de nostalgia da mãe, ao constatar que seu menino cresceu: “Só achei que haveria mais…”

Na constatação de Mason, agora já crescido, de que o importante é aproveitar o momento: “Eu sei, é… é constante. Os momentos são… parece que sempre é o agora, sabe?”

E descobrimos que apesar da história ser familiar, saímos dela modificados. Não por simplesmente dar forma à nossa própria trajetória, mas por garantir que nossas angústias são universais.

Percebemos então que não estamos nem estivemos sozinhos quando o casamento acabou, quando o corte de cabelo no ensino fundamental nos envergonhou, quando o primeiro amor não vingou, quando morremos de raiva ou medo, quando tivemos aquela conversa séria, quando nos despedimos, quando nos sentimos especiais, quando duvidamos, quando tivemos certeza.

Principalmente, quando achamos que “haveria mais”, e descobrimos admirados que a vida “é sempre o agora”.

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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