Eu não sei pechinchar. Sério. Desde um passeio sem compromisso à feirinha hippie até a compra de um carro, não consigo chorar desconto. Quer dizer, tenho aprendido, devagarzinho, a falar: “À vista é mais barato?” ou até: ” Se eu levar duas pulseirinhas, tem um descontinho?” Mas então, se o vendedor for ponta firme, e disser assim: “ah, mas já está em preço de liquidação”, eu aceito. Aceito quietinha e quase me desculpo por ter ousado pensar em pagar menos.

Tenho dificuldade em desejar. Se encontrasse o gênio da lâmpada e tivesse direito aos três pedidos, seria uma mistura de alegria e culpa. Um desperdício na hora do deleite.

Você deve estar imaginando: “Mas que pessoa sem graça, desbotadinha, quase um café com leite…” e eu hesito em contestar, porque sei que lá no fundo existem desejos sim. Desejos de ser mais dona das minhas vontades, corajosa em meus delírios de consumo e necessidades, certeira naquilo que me realiza.

E mesmo não sendo fácil “esperar o ônibus da escola sozinha… rezando baixo pelos cantos por ser uma menina má…”, é moleza aceitar as prisões que construímos pra nós mesmos. Prisões sem grades ou muros, mas tão limitantes quanto. E penso no quanto a falta de ousadia ou desejo amarra a vontade de nossas asas.

Se encontrasse o tal gênio, o pedido seria um só: “Um pouco de malandragem”… ou a ginga necessária pra escapar ilesa de meus próprios julgamentos e aflições.

Desejaria a tranquilidade dos que se sentem a vontade dentro da própria pele, dos que não recusam o prazer nem se desculpam pela alegria excessiva.

Esfregaria a lâmpada ávidamente em busca de boêmia_ não aquela que vaga sem hora nem destino madrugada afora_ mas a boêmia de quem tem o espírito livre e coração solto. Dos que têm a fala mansa, certeira, gentil e desejosa de se acariciar verdadeiramente.

Seria boêmia numa dança sem coreografia com minha alma, permitindo seu voo, e principalmente descobrindo o que lhe completa, o que lhe realiza e finalmente, o que lhe basta.

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

2 COMENTÁRIOS

  1. Uma dica? chega com o dinheiro em trocadinhos e mostra, ninguém resiste; mas é preciso chegar marcando presença, e depois ainda passa todos os dias para se fazer conhecido.

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