“Assombrar-se sob a imensidão do céu noturno, sentir o cheiro de grama e recordar-se de um momento da infância, distinguir em um rosto o sorriso amigo ou a máscara da indiferença, chorar ao assistir um filme. Essas sensações e outras mais complexas, como o amor materno e a fé, são fruto de interações eletroquímicas dentro do cérebro” (Extraído da revista “Veja”)
 
 Outro dia, na sala de espera de um consultório médico, me deparei com uma matéria da revista Veja falando sobre “conectomas”, ligações químicas e elétricas formadas no cérebro, que poderiam explicar aquilo que a genética não explica, como por exemplo, as diferentes reações que temos frente ao mesmo estímulo.
 
 Tenho pânico de viagens de carro em serras, sob neblina. Meu DNA não carrega nenhuma informação acerca desse medo; meu conectoma sim. Já sofri dois acidentes sérios, e essa informação formou um circuito neural, ativado novamente em situações que remetem ao trauma.
 
 Por isso a realidade é relativa. Domingo, lendo o jornal, um artigo de Marcelo Gleiser trazia a seguinte frase: “A realidade é definida pelo modo como interagimos com ela” .
 
 De repente, uma luzinha acendeu aqui dentro. Somos os detentores de nossa realidade. Os únicos capazes de lidar com aquilo que nos acontece ou afeta. Pois, como indagava o texto:

Lembrei de um desenho antigo, que revela duas faces ao mesmo tempo: a da moça e a da velha. Enxergar uma ou outra depende do ponto de vista. Nossa percepção imediata revela somente um lado da realidade _ aquela que conseguimos ver.

A forma como lidamos com nossas relações fazem parte do que consideramos real também. Uma pessoa ferida pela vida, amargurada após relações que não deram certo, certamente terá uma visão diferente daquela que tem a mocinha cheia de sonhos, que entra na igreja de braço dado com o pai. Por isso é tão necessário ter cuidado com aquilo que transmitimos aos outros _ principalmente aos mais novos_ a partir de nossos paradigmas ou percepções (nem sempre tão legítimas), mas que fazem parte da nossa realidade, não da realidade universal.

Aquilo que vejo pode não ser o que é; e talvez uma mente jovem, sem grandes traumas, tenha maior capacidade de enxergar o que realmente é, ao invés daquilo que podemos acreditar que seria.

Preconceitos são realidades distorcidas, e infelizmente podem ter a mesma proporção que sentimentos nobres, como o perdão e a fé. Talvez as crianças pudessem nos ensinar mais, ao enxergarem limpo, com seu olhar “ingênuo”, livre de conexões distorcidas e pouco verdadeiras.

A vida não é fácil, e muitas vezes é injusta. Por isso, é tentador nos moldarmos de forma distorcida. Blindamos nossa estrutura e nos protegemos com excesso de cuidado. Nosso pecado é intervir nas páginas em branco daqueles que amamos, transmitindo nossos medos _ muitas vezes desnecessários_ para protegê-los.

Mas a vida arca de sacar suas próprias cartas. E torcemos para que nossos conectomas façam conexões saudáveis, leves, carregadas de poesia e fé_ pois, como disse a raposa: “O essencial é invisível aos olhos”…

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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