Título Original: Sinais

Se há algo que me irrita de verdade, é estar no trânsito justo atrás de um carro com a seta insistentemente ligada por engano. Você percebe claramente que a pessoa não vai fazer a conversão para lugar algum _ com sorte ela não vira para o lado oposto_ mas a bendita seta fica lá, piscando sem parar por puro esquecimento do motorista desligado.

Setas nos carros são sinais. Sinais que aprendemos a usar para informar nossas intenções. Mais que isso, uma forma de sermos entendidos, evitarmos acidentes e sermos generosos com as pessoas que dependem disso para transitarem em segurança.

Quando brincamos com os sinais_ como o motorista que esquece a seta ligada_ ou simplesmente ignoramos a necessidade de emiti-los, confundimos os outros, provocamos acidentes, irritamos pessoas atentas, nos tornamos arrogantes.

Semelhantes ao motorista irritante, encontramos pessoas mal sinalizadas por aí. E nos confundimos com esses seres que, por inconstância ou inércia, não definem suas reais intenções.

Já se tornou comum ouvir a frase: “Sou responsável pelo que eu digo, não pelo que você entende”.OK, a frase é ótima, mas não justifica infrações_ no trânsito, na vida_ do tipo: “eu-tava-com-a-seta-ligada-o-tempo-todo-só-você-não-viu” porque estar com a seta funcionando 24 horas por dia também não informa absolutamente n-a-d-a… e quando você diz que vai virar para o lado direito, é claro que acredito que uma hora_ um dia_ você certamente convergirá para a direita! Ou será que “consideração” anda demodê?

Parece que está na moda o mantra “O que você resiste, persiste”. E por isso brincamos com os sinais, nos divertimos com a confusão que causamos e assumimos com orgulho o quão antagônicos somos no querer, no demonstrar, no sentir. Maltratar o coração alheio é a chave para mantê-lo pulsando_ angustiado e confuso.

Tem gente sinalizando que se importa, quando não faz a mínima diferença. Tem gente fingindo que esqueceu, mas no fundo ainda se importa demasiadamente. Tem gente dizendo que ama, quando apenas se acomodou na rotina do amor. Tem amor sufocado fingindo indiferença.

O que se quer é um sinal vermelho quando o amor acaba ou verde intenso quando ele deseja ficar.

Para o bem ou para o “mal”, há que se ter clareza, definições, pingos nos iis.

Que se declare sem medo de ferir, pois não saber o que o outro quer quando se quer muito, dói tanto quanto_ até mais.

Que feche as portas sem ensaiar recaídas, que se defina com ou sem esperanças.
Que possibilite novos rumos, vôos livres… ou que prenda de uma vez.

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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