Durante anos desejei uma vida bege. Em tempos de “50 tons de cinza” isso soa quase como um ato ilícito. Mas houve um tempo em que havia me cansado dos altos e baixos inerentes à juventude, da inconstância das relações, da busca incessante pelo amor. Queria minha vida pintada em tons de bege: plácida, serena, com casa, marido, filhos e até animais de estimação. Era meu ideal de felicidade_ e permanece sendo.

Gosto de refúgios. De assistir TV na cama com a cabeça no colo do marido e nosso filho zapeando pelos canais infantis com o controle remoto.
Há dias em que desejo a vida sendo só isso; que todo o caos se isole lá fora e em nós se perpetue essa calmaria _ essa vida bege.

Não sou acomodada, muito pelo contrário. Minha vida nunca teve cinquenta tons de cinza, mas talvez pintasse um arco íris por dia, com tudo de bom e ruim que isso pode ser.

Buscando, encontrei a vida bege _ não desbotada_ com que sonhei. E hoje, conversando com uma amiga sobre isso _ ela reclamando dos 50 tons em que se encontra – eu disse uma frase que soou verdadeira para mim também: “Não é porque você se casa que você deixa de ser quem você é”

Muita gente imagina que colocando uma aliança no dedo deixará do lado de fora os conflitos, as angústias existenciais, o caos interior, as carências, o passado. Não é bem assim. O casamento nos propicia certa estabilidade, segurança, afetos à mão, mas não nos salva de nós mesmos.

Ter ou não ter uma vida bege não depende de estar ou não acompanhado. Porque por trás de um relacionamento estável podem haver pessoas fervilhando em tons de vermelho, serenas como gelo ou desbotadas como lingeries comuns e sem graça …

Confesso que de vez em quando uma parte de mim _ que penso ter deixado lá atrás_ volta para tingir meu  almejado bege com cores fortes, intensas e talvez desnecessárias.

Não sei se acontece com todo mundo, mas por outro lado tenho orgulho de me resgatar de vez em quando; de me sentir única, indissolúvel, com uma identidade própria_ menos bege e mais intensa…

“O mundo anda tão complicado”…


 

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

4 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom, fico imaginando o quanto difícil se torna conseguir uma vida bege num mundo assim, de 50 tons de cinza, né?
    As vezes acho que nunca conseguirei essa calmaria… Minha vida é sempre tão cheia de dramas!
    Talvez seja parte do amadurecimento que ainda me falta!

    Parabéns pelo blog!

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