Outro dia uma amiga querida falou sobre o filme “O homem do futuro”. Com aquele ar entusiasmado de quem volta no tempo e reencontra velhos amigos, disse: “Esse você tem que ver…” e quando continuou a comentar, dizendo que tinha se lembrado de mim, tive curiosidade de assistir.

É claro que me preparei. A gente não assiste a um filme desses todos os dias. É preciso estar forte, com grande domínio das emoções e sem qualquer vestígio de saudosismo…

Então dei play. Confesso que quase me traí quando a trilha começou: “A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castaaaanhos…”. Legião me mata, confunde, restaura. Mas me mantive firme, tentando não comparar o show dos alunos da faculdade (há tanto tempo…) com a festa do filme, nossas fantasias tão originais às dos personagens; tentando não pensar que um dia estivemos ali, cantando e nos emocionando também.

O filme acabou, fui dormir, a vida seguiu. Fiz um ou dois comentários com minha amiga e senti que uma parte dela permanece lá também, naquele tempo bom que a gente faz questão de eternizar _ por proteção ou nostalgia, não sei.

O fato é que de vez em quando me sinto protegida lembrando. Sinto que ainda sei quem sou quando volto em pensamentos, conversas, reencontros.

Semana passada li um artigo do Ivan Martins intitulado “amores difusos”, que falava de um tipo de sentimento que “navega entre o encantamento e a amizade, tem um pouco das duas, e fica a centímetros de se tornar inteiramente uma delas. Movemo-nos entre sutilezas”. Ele falava de amores, afetos, atração; mas aqui me refiro aos amigos próximos, essa turma que foi testemunha de minha juventude, de minha alegria, do meu desabrochar no limite entre a infância e a vida adulta.

Gosto de me resgatar. E esse texto que escrevo agora (à mão), sentada na cama enquanto assisto à reprise de “Grey’s Anatomy” ( o marido está lá embaixo lendo o jornal e nosso filho dorme) foi o jeito que encontrei de me resgatar “só por hoje”. Porque agora há pouco, durante o jantar, alguns fantasmas voltaram a assombrar, e eu tento ser forte, tento apoiar quem amo, mas sou humana e sinto medo; então subi e tentei pensar em outra coisa, tentei encontrar um pensamento que me acalmasse, um pensamento que me tirasse do olho do furacão. Voltei no tempo e pensei nas pessoas que ficaram lá atrás.

Lembrei do filme “O homem do futuro” e cantei baixinho “Tempo perdido”. Deu certo. Pode ser que amanhã esse rascunho de texto vá para o lixo, mas também posso digitá-lo e publicar, quem sabe?

A verdade é que em algum lugar em mim _ e correndo o risco de soar cafona_ existe uma “saudade que eu gosto de ter…” ( podem rir, mas a música ficou linda na versão de “Meu nome não é Jonny”) , que me ajuda a enfrentar a vida adulta.

Não desejo mudar o presente, resgatar o passado, consertar o futuro. Só desejo mais conversas, menos medo, mais presença e tranquilidade _ a paz acolhedora de lembrar quem sou.


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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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