Tudo que é perfeito pede para morrer. Me deixa te explicar o porquê.

Há uns dias atrás eu estava solitário em meus aposentos quando a saudade me pegou de surpresa, como quem entra no peito sem ser convidada e resolve ficar por uns momentos até resolver quando partir novamente. Quando notei a sua chegada, logo entreguei-me a seus efeitos nostálgicos e alucinógenos. Saudade não se explica, a gente só sente. Ela chegou, alojou-se por uns instantes, e se foi. Disse que voltava qualquer hora dessas. Nesses doces momentos de saudade, recordei-me de um beijo que dei em uma bela moça numa cafeteria no centro, e tudo aquilo me fez pensar nas palavras do grande poeta Rubem Alves; “Tudo que é perfeito pede para morrer.”

Mas como assim? Você deve estar se perguntando. Me deixe esclarecer a tese.

A saudade se faz perfeita porque entra em nossas almas, cria seus encantos maravilhosos, e se vai. Ela só permanece alguns instantes, por isso a gostosura de senti-la novamente grita por um novo encontro. Um beijo de dois amantes é perfeito porque logo que os lábios deixam de se tocar, eles sentem uma vontade imensa de beijar novamente. Amante algum suportaria um beijo que durasse toda a eternidade. Uma poesia é perfeita porque ao término de suas últimas palavras, um sentimento enorme nos invade e nos fortalece. Sem este término poético, não sentiríamos sua energia poética dentro de nossas almas. Uma musica é perfeita porque tem os acordes finais delimitados em nossos ouvidos atentos. Se caso a música não terminasse, ou a poesia não chegasse ao seu fim, ou o beijo dos apaixonados não acabasse, tudo seria cansativo demais e perderia toda a magia do efêmero.

Mas e o amor? Ele pede pra morrer para ser perfeito?

Para todas as coisas há o momento certo de vir e partir. O amor chega e vai quando sua hora é chegada. Cristo foi o exemplo disto, morreu e ressuscitou ao terceiro dia. Foi o amor incondicional que pediu para morrer para tornar-se perfeito dentro de nós. Tudo o que é efêmero torna-se perfeito aos nossos olhos. Como o nascer do sol ou as cores estonteantes do arco-íris. A morte é o acorde final da vida perfeita. Vida essa que acaba para renascer novamente quando for permitido ou quando chegada a hora.

Por isto volto a deixar a saudade me invadir nas madrugadas solitárias, pois a saudade só aparece na ausência de alguém. Ela aparece quando o encontro dos amantes se foi, quando os lábios dos apaixonados despediram-se um do outro. Tudo que é perfeito pede para morrer para poder renascer novamente. E uma hora ou outra, se despede mais uma vez para voltar a ser perfeito.

Entende o que eu quero dizer?

Imagem de capa: Marjan Apostolovic, Shutterstock

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Pedro Ficarelli

Apaixonado pela poesia feminina. Acredito fielmente que o amor seja o infinito que resolveu morar no detalhe das palavras. Muito prazer, eu me chamo Pedro Ficarelli, e escrevo com o único intuito de pôr palavras onde a tua dor se faz insuportável.

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