Para esquecer devemos primeiro lembrar

Imagem de capa: Alissa Kumarova, Shutterstock

Existem muitos episódios de nosso passado que pretendemos esquecer. Para encerrar uma dor, no entanto, é preciso primeiro recordar. Nem tanto para deixar aquilo fresco em nossa mente, mas sim para integrar em nossa vida atual os acontecimentos que nos machucaram, com o enriquecimento que isso traz.

Todos os processos pelos quais passamos durante nossa vida implicam mudanças, e supõem algumas batalhas internas e externas. As mudanças implicam perdas, e com essas vêm também as despedidas, dores e renúncias. Parece que seria natural evitar integrar isso a nossa história, já que para isso é necessário esforço e algum sofrimento porque são lutos já passados que precisamos rever.
Claro que os lutos fazem parte de nossas vidas, tendo um sentido importante para o nosso próprio desenvolvimento pessoal. Já que os lutos nos ajudam a mudar para melhor e ir aceitando o inevitável, não faz sentido evitá-los, mesmo porque eles ainda nos preparam para incorporar novas experiências com grande valor e significado.

Aceitar a transformação do luto não implica ter que esquecer, mas sim ter que integrar, para renascer em cada uma de nossas etapas da vida.

Perdoar é mais do que esquecer

No perdão há mais do que nossa incansável luta interna cheia de rancores, culpas e remorsos. Quando o perdão finalmente chega, a aceitação para fechar o luto já está em curso. Isso é comum com os amores frustrados, que pretendemos esquecer antes de perdoar, e assim acabamos mantendo uma dor que nos envenena.

Perdoar requer a aceitação para obter o aprendizado necessário e incorporar ao nosso ser o desenvolvimento pessoal que todo relacionamento traz. É um processo que nos traz paz e tranquilidade no fim, e que supõe uma consciência tranquila. O caminho para o perdão é como o caminho para o amor, já que ele se vale deste sentimento para enfim se manifestar.

É claro que você deve ter pensado em algum momento naquela frase muito famosa: “o tempo cura tudo”. Mas isso é um grande erro já que o tempo, por si só, não cura nada; é o que fazemos com nós mesmos durante esse tempo que pode nos ajudar e amadurecer, a aprender e a crescer interiormente para resolver nossos conflitos e nossas dificuldades.

“Não se pode esquecer do tempo se não nos servirmos dele.”
-Charles Baudelaire-

Aprender a se despedir

Dizer adeus é uma constante inevitável em nossas vidas. Passamos por muitas despedidas importantes, tanto de pessoas (rompimentos em relacionamentos amorosos, afastamento de amizades, mortes de familiares, etc) como de circunstâncias (trabalhos, saúde e diagnóstico de alguma doença, expectativas que não se cumprem, etapas que são finalizadas, filhos que alcançam sua independência e saem de casa, etc).

Em cada um dos momentos pelos quais passamos deixamos para trás assuntos irrecuperáveis. Permitimos a mudança para poder ir avançando, e é assim que aprendemos a nos despedir, sabendo que toda interação significativa na vida deixa uma marca em quem somos atualmente.

No momento de luto, principalmente se estamos falando de relacionamentos amorosos, o melhor em um primeiro momento é não ter à vista tudo o que nos lembra a pessoa, para que assim possamos ir superando sem tanta dificuldade. Uma vez superado o luto, podemos nos dar conta que essa pessoa já não nos afeta e nem remexe em nossas emoções.

“Conservar algo que me ajude a lembrar de ti seria admitir que posso te esquecer.”
-William Shakespeare-

Viver o presente sem esquecer o passado

Uma das principais chaves do nosso bem-estar é como nos situamos perante o presente. O passado já não pode ser mudado, não podemos controlá-lo nem realizar qualquer mudança, a única coisa que podemos controlar é nossa atitude de como confrontar o passado estando no presente.

Para isso nosso trabalho pessoal não está em esquecer nosso passado, nem as pessoas que importaram tanto para nós, mas sim em poder integrar todas essas experiências em nosso presente, de modo que seja uma vivência que traga aprendizagem e crescimento.

Poder entender totalmente o que fomos e o que vivemos, tanto as partes mais agradáveis quando as mais desagradáveis, faz com que saibamos melhor o que queremos atualmente. Nossa visão se torna mais lúcida e sábia ao integrar o conjunto das experiências de nossas vidas para o amadurecimento.

“Caminhante, são suas pegadas,
o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao olhar para trás
vê-se o caminho que nunca
voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
só rastros no mar”
-Antonio Machado-

Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa

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Blog oficial da escritora Fabíola Simões que, em 2015, publicou seu primeiro livro: “A Soma de todos Afetos”.

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