Tenho fé no amor

Imagem de capa: Masson, Shutterstock

Quem me lê de vez em quando, sabe que tudo que escrevo é basicamente aquilo que aprendo empiricamente. Eu sou o tipo de pessoa que observa muito, que vai além, que faz dos tombos lições e que carrega um sorriso mesmo num dia daqueles que amanheceu chovendo e precisei trocar de calça porque me estabaquei na calçada molhada. Eu sorri, acreditem! Para uma cachorra do vizinho que veio toda brincalhona ao me ver ali, estatelado e com a bunda molhada. Mas senta aí que eu tenho outra história pra te contar, dessas que te põe um sorriso no rosto e enche o peito de cheiro de pudim de vó, sabe?

Já faz alguns meses que mudei de cidade e uma das coisas que me fazem sentir em casa é a comida do lugar. Duas esquinas antes de onde moro tem uma Kombi 89 e um casal simpático que trabalha ali “Desde 1991”, (está escrito em um adesivo na porta). Nasci em 91, quer dizer, só a história de trabalho desse casal já tem a minha idade, e eu aqui preocupado com as marcas de expressão que estão ali todos os dias me dizendo “Oi”. Por alguns dias apenas passei, sempre vi muita gente ao redor e pensei: __ Deve ser bom e barato! É claro que é muito difícil manter uma alimentação regrada trabalhando muito, qualquer miojo é um baita empenho, mas, mais perto dos 30 do que dos 20, hoje, o preço faz diferença em minhas escolhas gastronômicas.

Dia destes, fome bateu e o cheirinho da esquina me sequestrou, pedi um lanche daqueles que tem tudo e custa dez reais. Enquanto esperava, vi um senhor sem paciência ir embora e o “Irmão”, como se auto intitula, me pedindo desculpas pelo impaciente que havia saído dali sem comer. Fiquei no celular, troquei algumas palavras, peguei meu lanche com vontade de abrir ali na rua mesmo, andei uma quadra, cheguei em casa e, estava maravilhoso. É só um lanche de esquina temperado com a fome de um dia todo, mas, dá pra notar o carinho e o amor com que é feito. O senhor um pouco perdido e esquecido, sua esposa que leva o jeitinho desengonçado do marido na brincadeira e solta uma daquelas frases: __ Imagine quando ele passar dos 50, não vai mais lembrar de nada. E os dois sorriem.

Não deu outra, na semana seguinte passei novamente, pedi o já “de sempre”, fiz umas perguntas, pois dentro de mim ainda vive o repórter da cidade pequena. Eu apenas disse: __ Quero o de sempre, virei fã. Quem me conhece sabe o quanto eu prego isso de elogiar as pessoas e nos esforçarmos pra sermos cada vez mais gentis, mas, há tempos eu não recebia uma gargalhada de volta. Ele agradeceu, falou ali no meio de meia dúzia de pessoas o quanto um elogio fazia bem, voltou a se desculpar pelo senhor impaciente da semana anterior que se quer deu a chance de explicar. Sorrindo preparou meu lanche, me disse um “Fique com Deus”, daqueles que só a família da gente diz de verdade.

Esse texto não é sobre gentileza ainda que ser gentil seja um tipo de adubo que faz o amor crescer. É sobre a Fé no Amor. É sobre um casal que trabalha juntos há mais de 26 anos, (Já faz oito alvarás só naquela esquina, diz ele). É sobre depois de tanto tempo juntos ainda rir da piada um do outro, rir do defeito, dos esquecimentos, dar as mãos pra ver a idade chegando. É sobre chamar de amor, chamar de “meu bem”, dividir o trabalho nos dias frio e quentes. É sobre juntar todas as coisas pra escapar da chuva. É falar sobre Deus. As coisas maravilhosas são as mais simples e estão escondidas lá num lugarzinho onde a gente não costuma olhar com o coração. É meio que como jogar Pokemon GO! É preciso ter um aplicativo no coração pra caçar essas lições incríveis escondidas no cotidiano. O amor não requer mansões ou fortunas. O amor só pede reciprocidade. Saí dali reabastecido de fé no amor, saí querendo contar pra todo mundo.

Ninguém é obrigado a ter fé em um deus ou pregar o que acredita, mas, no amor, todo mundo deveria ter fé, todo mundo deveria espalhar. Dar Amor não te faz mais pobre, ele se reproduz a medida que você dá! Dê amor e tenha fé!

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Giovane Galvan
Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.

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