Fique com o que você gosta de cada pessoa, o kit completo é difícil

Imagem de capa: Prochkailo, Shutterstock

As pessoas enfrentam uma multidão de contradições. É difícil que elas estejam relacionadas apenas e exclusivamente com a nossa identidade. Mesmo nos isolando ou tentando permanecer em um lugar remoto da Terra, para nos esquecermos de tudo e de todos, nós mesmos já somos parte de tudo o que foi vivido e, com isso, todos.

Em um só dia podemos viver uma autêntica montanha-russa de emoções em nossas relações com os demais. Pode até parecer ridículo, absurdo e incoerente ou incrivelmente estimulante, algo que tem suas implicações cognitivas e emocionais.

Levando em conta o que foi dito anteriormente, observemos uma célebre frase que Sigmund Freud disse uma vez: “A neurose é a incapacidade de suportar a ambiguidade”. Dessa observação, deriva-se que a realidade se torna difícil com muitos elementos contraditórios, mas depende apenas da nossa saúde psicológica aceitá-los e tolerá-los. Vamos analisar como podemos enfrentá-los.

A ambiguidade constante em nossa relação com cada pessoa

Um dia qualquer você se levanta e começa a falar com uma velha colega de escola. Você está contente por poder voltar a falar com ela, tudo parece fluir com perfeição. Pelo menos é o que parece, mas de repente surge uma opinião inesperada com relação ao tema dos refugiados.

Você quer se afastar imediatamente desse comentário infeliz e do seu modo de ver, mas ao mesmo tempo você ainda quer ver sua colega. No entanto, esse comentário te deixou perturbado e tudo que você faz é remoer o assunto.

Por outro lado, você conheceu um rapaz. Ele é ideologicamente mais parecido com você do que qualquer outra pessoa. Vocês compartilham os mesmos valores, mas na verdade esta relação está longe de fluir adequadamente. Os silêncios sempre surgem, os olhares geram um estranho mal-estar e os tempos se tornam muito longos.

A relação parecia muito mais interessante no plano intelectual e virtual. Os valores levantados “a priori” não dão conta da carência de seus bons modos. A firmeza e a convicção que antes eram excitantes, agora abrem espaço para um desencanto brusco. Você foi vítima das altas expectativas.

As expectativas: o prelúdio das nossas decepções

Estamos submersos em uma contradição constante entre o que pensamos dos demais, esperamos que aconteça e o que finalmente acontece com as pessoas. Criamos continuamente expectativas que são derrubadas uma atrás da outra, sem espaço para que não desmoronemos junto.

Parece que, diante de tanta ambiguidade, a neurose é uma saída irremediável… o que fazer se não pensar nisso quando nada se encaixa? A pergunta seguinte é: Por que as coisas devem se encaixar? Até que ponto devemos ser flexíveis em nossas posições de partida com respeito aos demais pode nos levar à felicidade? A relatividade moral é o começo da falta de princípios ou é o primeiro passo pra fazer tudo ser mais agradável?

Perguntas e mais perguntas para conseguir que a complexidade mental se traduza em um comportamento mais simples. Substituir nossa frustração cognitiva por um verdadeiro compromisso cívico, ativismo social ou cooperação cidadã. Você não pode consertar o mundo, mas às vezes ajudar alguém que está com problemas pode representar uma ajuda a um pedacinho do mundo.

A origem da nossa neurose com respeito às mudanças e às diferenças pessoais

O fato de não estarmos preparados para aceitar a adversidade vem de uma educação baseada no medo, na censura e na imposição de regras constantes para evitar o caos social. Maximizar os recursos de educação para evitar catástrofes, não para criar paraísos nos quais o normal seja viver com tranquilidade e nos quais haja possibilidade de se refugiar caso seja verdade que uma catástrofe tenha acontecido.

Por essa razão evitamos e censuramos o que não gostamos nos demais. Assim, parecemos nos proteger e nos definir, mas realmente só estamos conseguindo ficar mais isolados, deprimidos e frustrados. Acabamos sendo pessoas amargas e acabamos amargando, também, a vida dos demais. Às vezes nossos grandes princípios se traduzem em um comportamento diário que deixa muito a desejar.

Nós queremos o kit completo, mas aceitar cada pessoa, às vezes, é o que nos dá paz

Queremos o kit completo e perfeito de uma pessoa, mas na realidade não percebemos que, quando o temos, não traz muitos benefícios. Deixar um espaço para algo que não se encaixa é divertido, enriquecedor, e a essência deste mundo ser mundo: a adversidade, no sentido mais extenso da palavra.

Aceitar a adversidade não quer dizer deixar de ser o que somos e caminhar na direção do que queremos. Para sair da neurose é conveniente que pensemos em uma série de questões:

– Acreditar em determinados princípios não pode se traduzir em tratar mal os demais. O fato de haver discrepâncias em inúmeras questões com uma pessoa não pode nos transformar em seres incapazes de manter regras de educação básicas. Se percebermos ofensas ou coisas do tipo, não temos por que agir do mesmo modo. Manter distância não é apenas cordial nestes casos, mas também é sinal de sabedoria.

– Sempre que você deixa que o mal-estar te inunde por comentários que não são do seu agrado, você está roubando espaço das coisas que você ama e de pessoas que, neste momento de sua vida, te proporcionariam bem-estar.

– Explore novos caminhos de entendimento com as pessoas com quem você mantiver discrepâncias somatórias. Ninguém abre novos caminhos andando por trilhas já traçadas ou carregadas dos mesmos pesos de outras vezes.

Como última reflexão, cabe pensar se é conveniente fazer uma escala aproximada na qual podemos incluir o que não toleramos de forma alguma e também aquilo com o qual temos um pequeno espaço de dúvida. Se alguém que maltrata um animal não entra na mesma categoria que alguém que um dia falou mal de você, então é melhor assumir que existe uma diferença entre o que é insuportável e o que é incômodo. Diante do primeiro a intransigência pode nos ajudar, diante do segundo, não.

Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa

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A Soma de Todos Afetos
Blog oficial da escritora Fabíola Simões que, em 2015, publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos Afetos".

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