Quando você foi embora

Imagem de capa: Alena Ozerova, Shutterstock

Eu arrumava o guarda-roupas quando um pedaço teu caiu por sobre o chão, tão gelado quanto teu coração quando decidiu ir… Pedaço esse do qual eu não me lembrava mais…

Olhei aquele nome gravado com tanta expressão, e me perguntei quem era você… Eu já não me recordo mais, nem do sorriso, nem da voz…

Não derramei uma lágrima se quer, nem esbocei uma mínima expressão. Mas desenhei uma palavra em pensamento: Gratidão! E vou dizer o porquê.

Quando você foi embora eu soube, que era a coisa certa, apesar de ter protelado tanto tua ida, nossa despedida. Por alguns momentos anteriores, cheguei a reconsiderar o que tantas vezes te disse, e que você também não levou em consideração. Eu não me sentia em casa, como se tudo o que estava vivendo não me pertencesse. E todos os sinais me presenteavam essa certeza.

Quando você foi embora, por noites seguidas eu chorei com uma dor maior que a anterior, com lágrimas mais resistentes ao espremer dos olhos pra cair, mas com mais inconformismo e decepção que as anteriores. Antes de ti.

Mas quando você foi embora me deixou todo o seu lixo, que com muita força e destreza eu retirei dos meus cantos empoeirados, com a maturidade de uma mulher muito mais confiante. Depois que limpei minha casa, sem saber que pra você eu deveria não tê-la preparado e sim, apenas um café, consegui me enxergar. E ai então, consegui chorar. Com vontade, com lágrimas sedentas por se juntarem na ponta do queixo e alcançarem o chão.

Chorei porque me vi tão suave. Chorei porque me descobri um puta mulherão. Aquela que você jamais veria, ou conheceria. Chorei porque vi tanto amor escondido, sorrir de volta pra mim, e de braços abertos me dizer: “Que bom que está de volta!”.

Depois que você foi embora, eu descobri uma nova vida. Maior e melhor. Parei de pensar na morte, nas doenças, e minhas crises de ansiedade e pânico, se foram junto com você e suas eternas lamentações. Depois que você foi embora, pude finalmente respirar fundo sem me sentir culpada.

Deletei todas as fotos, esvaziei os porta-retratos, e a mesa ficou tão mais bonita com aquela foto antiga, minha com meus pais. Ela me lembra o quanto sou amada, e querida pelas pessoas essenciais na minha vida. Me lembra do meu valor, sempre menosprezado e subestimado por você. E me lembra da minha doçura, minha meiguice, e tudo aquilo que você esperava encontrar em mim. Mas que hoje eu sei, Deus escondeu de você tudo aquilo que você não merecia conhecer, e guardou para me lembrar todos os dias o quanto valho a pena, pra Ele e para o mundo.

Quando você foi embora, finalmente aprendi a me virar sozinha, me gostar sozinha, me agradar sozinha, me refiz em mim. E adorei o resultado.

Quando você foi embora, pude por em prática todas as promessas que um dia me fiz. Meu mundo virou do avesso, e só na tua ausência descobri que o avesso é o meu lado certo. Fiz amizades, que na tua presença não se findavam, apesar de estarem sempre ali, crescerem e se fortalecerem.

Gratidão pela tua partida, por tantas descobertas a cerca de mim. Gratidão por tua chegada, por tantas alegrias inventadas, a cerca da falta do meu eu. Gratidão pela tua partida, e pelo meu reencontro comigo mesma.

Depois que você foi embora, a poeira que me cegava também desapareceu. E toda minha fantasia se desfez. Com isso, os pedaços humanos que compõem as pessoas ao meu redor, passaram a transcender beleza. E eu passei a olhá-las com mais carinho, e mais afeto, e admirá-las até pelos pedaços que lhes faltavam e pelas cicatrizes que contam histórias.

Depois que você foi embora, a maturidade me visitou. Só com tua ausência pude aprender a suportar sozinha e calada a dor que o silêncio causa. E transformar isso em inúmeras energias boas para fora de mim. A arte de ter o coração destruído e ainda assim oferecer a matéria-prima dos destroços ao mundo, é algo que talvez você ainda não saiba admirar, nem administrar.

Mas de todas as coisas maravilhosas que tua partida me deixou, a melhor de todas foi, sem dúvidas, o fato de ter dado espaço e lugar para outro chegar.

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Ana Carolina Santos
"Fisioterapeuta por formação e de coração; Virginiana com ascendente em Peixes; Cantora por hobbie; Apaixonada por Teatro Mágico e fotografia. Romântica, sensível, e apimentada. Menina mulher, de uma Fé inabalável."

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