O foda é que ela é linda

Leia Ouvindo – Troye Sivan – Gasoline 

Vou dividir uma coisa com você. Manhã dessas acordei logo que amanheceu, fiquei observando ela dormindo ali do meu lado. Por mais clichê que isso soe, ela dorme feito um anjo. Eu fiquei quietinho, procurei não me mexer pra não a acordar, quis aproveitar os derradeiros momentos que antecederiam o ritual matinal que assumi neste ano, um iogurte, uma fruta, academia, corrida e muito trabalho. Enquanto ela dormia e eu observava sua respiração calma, seus lábios ainda vermelhos de batom, suas mãos apoiando seu rosto e aquelas unhas que passearam pelas minhas costas a noite toda, ora carinho, ora tesão, muito tesão.

Seguia ali assistindo aquele sono profundo, por um instante eu quis imaginar o que ela sonhava, com o que sonhava e se sonhava comigo. Sempre me orgulhei de ser confiante, por mais narcisista que isso pareça, eu era sim o dono do controle e da situação, “logo eu” que sempre dei as cartas estava ali, dois pares na mão e ela ostentando um royal flush, perdi, me perdi. Ela ainda dormia e eu lembrava como nos conhecemos, não foi na fila do pão como cantaria Los Hermanos, foi na fila do banheiro da balada e o artista nem era tão bom assim. Ela me olhou e eu correspondi, dei meu nome, CPF, endereço, cópia da chave e cartão da biblioteca.

Ela não é o tipo de mulher que imaginei ter pro resto da vida, eu confesso. Ela é desengonçada, suja a casa toda pra fazer um miojo e não me passa pela cabeça ela com um bebê no colo preparando a mamadeira toda jeitosa com uma mão só. Sorte dela é que amo cozinhar e me dou bem com crianças, mas não consigo imaginar o futuro ao lado dela. Ela não é do tipo que se prende, não quer amarras, quer o mundo e você precisa saber lidar com isso. Por outro lado, ela é cheia de atributos dos quais me orgulho perceber. Num mundo de gente rasa ela é profunda, tem uma sabedoria proverbial, do cocô à bomba atômica e em qualquer assunto ela tem uma “informação bônus”, dá aquela sensação de que a gente fica mais inteligente depois de vinte minutos falando merda. Enquanto todo mundo vê de forma superficial ela desnuda a alma da gente só de olhar nos olhos.

Ainda não sei o que me faz ficar, talvez seja porque ela me tem nas mãos. Não sou eu quem vai, não iria mesmo morrendo de vontade. Ela não vem quando eu quero, o que eu quero não existe. É ela quem vem, depois do barzinho com as amigas cheirando um pouco a cigarro e bebida e aquele perfume incrível que na pele dela é minha fraqueza. Coloca uma música no celular, liga a TV sem volume nenhum, se desembrulha feito presente, não diz nada, não diz que sentiu minha falta, não me conta seu dia, não pergunta, só me beija, dentes, lábios, gemidos, as unhas, lençóis no chão e mais uma vez me tem como quer, quando quer. Me devora.

Não sei quem são os pais dela e nem o que fazem, não sei qual cor gosta nem se prefere açaí ou sorvete de pistache, não sei se fala bolacha ou biscoito, se é de direita ou esquerda, se sente o mesmo arrepio na alma que eu sinto quando a vejo ou se é pura ilusão daqueles olhos castanhos e esfíngicos. Não sei direito onde ela mora, nem de onde veio e o que a fez vir parar aqui. Não sei explicar, esqueço o discurso enquanto a língua dela desbrava minha pele. Eu não quero perguntar, nem adivinhar qual será a próxima vez que ela vai atravessar essa porta como dona da casa, como dona de mim. O FODA É QUE ELA É LINDA, transborda toda uma liberdade que eu não saberia controlar. Ela tem asas tatuadas na alma parceiro, bonito mesmo é deixa ela voar.

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Giovane Galvan
Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.

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