Quero um amor da carótida

Imagem de capa: Kar Tr, Shutterstock

Quero um amor para chegar por dentro, pela porta interna da carótida e se estabelecer no centro do coração, – que é de onde o amor vem para se espalhar pelo resto do corpo. Desejo que essa pessoa puxe um banquinho florido e sente-se confortavelmente em meu peito. Que cuide das minhas artérias como quem rega as flores de um jardim, pertinho, bem pertinho da raiz de mim.

Meu coração, esse órgão que enfeita o tórax, se embriaga de sentimento a cada manhã e desprende as arestas que grudam na parede da pele. E cede tudo por um cafuné, se enlouquece por um bom espaço no abraço e se fecha inteiro na primeira suspeita de alta maré.

Bobo que já foi um dia, tosco de tanto amar sozinho, hoje só se divide na fé dos que chegam para pousar mais do que alguns meros dias. Nada de solidão, aprendeu a ser um bom menino e sustentar-se por seus próprios pés. Caminha todos os dias de encontro ao sonho e descansa na poltrona da autoestima, vez ou outra furada pelo tecido da vida. Porém viva.

As células do seu, do meu, e de quem mais tiver um coração que pulsa, se alimentam além do oxigênio. Nem todo ar do mundo bombeia direito sem um bocado de gratidão entre as veias. Agradecer é verbo direto, é palavra que se estabelece por si só, sem dó, nem nó, nem o pó da cegueira dos que só pensam nas próprias veias e rasteiras.

Acontece que quando o coração agradece, a alma silencia inteira. A sujeira da janela do passado limpa igual banho de neném. Perfuma o ar do mundo. E as tristezas são jogadas na peneira da esperança, onde não sobrevive sequer um ponto da poeira criada pela falta de amor por si (e pelo outro).

Quero um amor que entenda isso, e mais do que isso, que assuma o compromisso de agradecer as surpresas do destino. Quero um amor que durma sereno na Aorta, atento para os que passam de cara torta e ainda mais para os que chegam sem entrar.

Desejo esse amor limpinho, branquinho, inteiro de luz. Esse amor que ao dançar no palco do peito, assim, feito um amor quase perfeito, sorria sem pretexto e arrume sempre um jeito de chegar mais cedo para o banquete da noite. E faz pernoite na minha sina de amar sem medida.

Ah, menina…

As batidas do meu coração impulsionam nossa dança e meu sistema de condução se rende ao seu GPS sem freio, que invade tudo por dentro como um vulcão em erupção. E queima ainda mais meu desejo por um beijo seu. Enquanto você desfaz a mala devagar na intenção de morar em mim, eu corro contra o tempo para ajeitar a cama e limpar a poeira do chão.

Pode chegar, meu amor. Mas chegue como ancora o barco em seu porto de proteção. Sem intenção de deixar a casa, sem pretensão de criar asas, somente com a vontade louca de convencer o tempo a nos perdoar pela falta de jeito com o que já passou.

Agora descanse, amor. A viagem foi longa, o mar agitado lhe desconstruiu o casco, que refaço logo no primeiro ato do amanhecer. Essa noite durmo na porta do peito, armado com a espada de Jorge. Assim, veja só, já agradeço o fim dos tropeços do tempo – que viajam para longe no fogo do dragão.

Meu coração é moradia bonita, ora é rima, ora é lua, ora é canção. Deite sem medo de doer-me e sem receio de doer-se. No peito arredio do meu corpo não tem ponto de chegada, apenas imensidão.

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Não estou muito preocupada com meus créditos, eu quero saber mesmo é do que me arrepia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.

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