As borboletas fugiram

Imagem de capa: Viktor Gladkov, Shutterstock

A vida é um ciclo, ok. Isso eu já entendi, João. Você repetiu tantas vezes que essa é a frase mais bem armazenada no meu cérebro, esse cara genioso que insiste em duvidar de tudo isso. Se nosso ciclo acabou, se já não andamos no mesmo vagão faz tempo, me explica, por favor, por que você ainda vive tão dentro de mim?

Parece que foi ontem que vi pela primeira vez o seu sorriso e as bochechas vermelhas por ter esbarrado em mim. Também parece que foi ontem que você bateu a porta de casa como se nunca mais fosse voltar.

E nunca mais voltou.

Ouvi dizer que você anda se divertido como nunca. É aquele velho conceito seu, aquele de viver como se o mundo fosse acabar amanhã. Veja bem, o mundo acabou faz tempo, desde o tempo em que o amor mudou de cor. Essa frase também é sua.

Mudou de cor, João?

Nosso amor mudou de cor ou só perdeu o brilho? Como faz para recuperar a transparência daquele beijo interminável? Ok, João. A culpa é minha, não sua. Fui eu que me perdi no tempo e deixei você cheio de espaço para outras aventuras. Essa minha fome de trabalho me deixou faminta do que a gente tinha.

A vida é feita de escolhas! Essa frase é minha, eu sei. Preciso aceitar essa decisão que você tomou. A burra decisão de voar sozinho. Ok, sem agressão. Me desculpe, ainda estou digerindo o vazio do estômago.

As borboletas fugiram, João!

Agora, me explica, qual é o próximo passo? Devo seguir que direção? Era você quem me guiava, lembra? As montanhas frias da serra ou a estrada florida a caminho da praia. Qual é a rota mais fácil? Onde fica a cidade mais distante? Talvez eu queria me esconder por lá.

Ou não, quem sabe a melhor escolha ainda seja a festa do final de semana, aquela que você não me deixava ir sozinha. Quem sabe logo na entrada dou de cara com o príncipe encantado? Sou bem capaz de roubar o carinha da Cinderela. Era Cinderela ou branca de neve? Qual delas perdeu o sapatinho? Eu acho que mordi a maçã da velha bruxa, isso sim.

João, não ligue para minhas palavras desconexas, pois sempre fui meio descompensada, você sabe disso. Não ligue para essas palavras duras de quem está sofrendo desesperadamente. É tudo forma de falar. Eu estou ótima.

Não ligue para nada. Porém, liga para mim e me convida para tomar uma cerveja na sexta-feira, assim posso dormir na sua casa e preparar aquele almoço que você adora no sábado. Tem futebol no domingo? Posso assistir com você?

Não! Eu odeio futebol! Para tudo! O que estou fazendo? Não me procure mais! Aliás, “eu quero que risque meu nome da sua agenda, esqueça meu telefone, não me ligue mais, pois já estou cansado de ser o remédio para curar seu tédio (…)”, lembra dessa música? Vou colocar como meu despertador só para acordar lembrando o quanto quero que você me esqueça.

Olha, silêncio! Esse barulho nas escadas… parece você subindo cansado e pendurado no corrimão. É você, João? Ou é o vizinho que agora resolveu imitar seus passos só para me fazer sofrer ainda mais. Eu odeio esse vizinho.

João, agora é sério. Preciso ir. Fique tranquilo, pois não vou invadir o seu trabalho com 30 rosas vermelhas e um cartaz escrito “eu te amo”. Eu não sou dessas, João. Tirando as rosas vermelhas, talvez eu passe aí mais tarde com aquele café que você adora (e o cartaz).

Ou talvez eu viaje para o interior, quem sabe aquele Camping da dona Maria que você sempre quis ir? Uma noite com insetos e banheiro coletivo talvez me faça lembrar que tem coisa pior do que perder o namorado na noite de Natal.

Estou rindo, João. Não de você, mas de mim. Não pelo que estou escrevendo, mas pelo tanto que vou rir ainda mais quando a tempestade passar. Rir de ter sofrido tanto por alguém que simplesmente não me quer mais. Vou estar dançando pela casa esperando a ligação do novo carinha que conheci na academia.

Voltei a malhar, João! Quero ficar com a bunda do tamanho daquela colega com quem você adora almoçar. Vou ficar bem, pimpão! Era assim que eu chamava você, né? Acho que foi isso que estragou nosso amor. Deveria ser proibido chamar qualquer pessoa de pimpão.

Ó, está na hora da reunião de condomínio! Vou mais bonita do que nunca, vai que o vizinho cabeludo me chame para um show daqueles de balançar a cabeça feito louco. Lembra como sempre quis me jogar nos braços da multidão enquanto o rock’n’roll ensurdecesse meus ouvidos?

Mentira, João, não vou na reunião. Hoje vou dormir com a Marisa Monte. “Tô com sintomas de saudade…”. Vai passar, João. Sempre passa, né? Espero que não custe muito e que logo eu já esteja comprando sapatos novos por aí. Ah, mas também não precisa passar tão rápido.

Que dure o tempo certo para que eu lembre de você e sinta apenas a alegria de ter tido um cara tão bacana ao meu lado.

Seja feliz, João. Não agora, pois estou com muita raiva de você.

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Não estou muito preocupada com meus créditos, eu quero saber mesmo é do que me arrepia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.

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