O doce mistério da intimidade

A intimidade é uma danadinha mesmo.
Vem devagarinho… na ponta dos pés. Passo por passo.
Sorrateiramente deslizando pelas beiradas, vai conquistando seu lugar nas relações.
Ela vem sem pressa, mas quando a gente se dá conta já se instalou de vez, e você se pega apertando a espinha de alguém no ônibus. Ou aqueles cravinhos no queixo.

Acredito que um dos maiores sinais da intimidade é abrir uma geladeira que não é a sua. Chegou e abriu a geladeira? É de casa.

Mas, como dá esse processo? Qual o momento que você se torna tão próximo que já recebe o selo da liberdade?
É simplesmente um mistério.
Porque não tem nada a ver com tempo de relacionamento ou contato físico.
Um casal que acabou de se conhecer pode ter mais intimidade que outro com 20 anos de casamento. Alguém que você só conversa pelo telefone pode saber mais de você do que sua mãe.

É muito intrigante que isso não acontece com todas as pessoas, não importa quão longo seja o relacionamento. Tem gente que simplesmente não se abre pra isso, não sabe lidar, ou nem faz questão. E não há problema algum. Esses talvez só tenham medo que invadam seu espaço. O que é totalmente compreensível, já que intimidade e abuso facilmente podem ser confudidos.
Intimidade mal dosada vira desleixo e desrespeito, o que pode ser desastroso e fatal pra qualquer relacionamento.
Acredito que o preço da intimidade duradoura e saudável – aquela com sabor de chocolate – é o respeito e o semancol. Esses nunca fizeram mal a ninguém.

Mas o fato é que em todo o relacionamento que tenha algum valor, ela vai estar ali. Escondida nas palavras ou escancarada nas ações.
É uma conexão natural. Se forçada, estraga. Azeda.
É via de duas mãos. É confiança.
Algo quase sobrenatural.

É olhar nos olhos e saber na hora que tem algo muito errado. Ou algo muito certo.
É aparecer sem avisar, ser recebido mesmo com a casa bagunçada e ainda tirar onda com o anfitrião.
É falar parecido e ter piadas próprias e eternas, que sempre vão ter graça.
É comprar um presente e escutar “como você sabia que eu adoro isso?”
É pegar a parte maior do bolo hoje, mas amanhã comprar outro.
É não ter mais aquela vergonha de escutar suas músicas toscas ou cantar desafinado.
É se sentir parte da mobília.
É pijama, chinelo de dedo, palavrão.
Cabelo desajeitado e bafinho matinal.

A intimidade é uma merda.
É o que dizem.
Glamour zero.
Eu acho uma lindeza.
Pois além de tudo isso é não ter vergonha de desabar, de demonstrar fragilidade e soluçar de tristeza no ombro de alguém.
Quando você confia tanto em alguém que já pode ser você mesmo, com a cara lavada ou de pantufas. Pois não há julgamentos. Poder falar e demonstrar sua opinião e não se envergonhar de estar ali, inteiro. Ser recebido e também receber o outro, do jeito que vier, com olheiras ou alface no dente.

É viver o outro e deixar ser vivido também… seja lá se esse outro for o vizinho, a amiga, o irmão, namorado, ficante.
Acho uma delícia viver momentos assim.
Pois é encantador poder desfrutar de um relacionamento onde só um olhar já diz tudo.
É se abrir e estar aberto. Não importa quando, nem onde.
É cumplicidade.
Sintonia fina.

Intimidade é bem maior do que saber segredos. É participar deles.

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Estela Meyer
Admiradora da simplicidade e dos bons corações. Inquieta, curiosa e viajante. Adora boas histórias, risadas, cafuné e chimarrão. Faz piada de si mesma e ainda acredita nas pessoas. Anseia por um mundo com mais sensibilidade, roupas de capuz e pijamas com bolsos. Sua mais nova aquisição é um longboard.

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