Só é feliz o tempo inteiro quem toma remédios, e olhe lá…

Temos que a felicidade é algo passageiro, assim como a tristeza, a dor, o luto. Mas por quê aceitamos que os sentimentos ruins passem e não aceitamos que a felicidade passe? Estamos vivendo sob a ditadura da felicidade, que é, justamente, a causa da infelicidade.

Leiam.

Hoje passava um tempo da tarde assistindo a um pouco de televisão quando fui surpreendida por uma frase: “Felicidade é um estado passageiro, aproveite apenas a intensidade, pois ela passa. Quem quiser ser feliz o tempo inteiro, tome remédio. Não há como ser feliz o tempo inteiro.”

Me agrada quando algumas pessoas me dizem sinceridades. Me sinto mais humana. Menos obrigada a ser perfeita. Ontem, por acaso, pela primeira vez me disseram: “Fechei o facebook porque me irritava ver aquela mentira de felicidade o tempo todo. Quero usar meu tempo para coisas reais.” Vejam a colocação sincera da palavra: “me irritava”. Por quê não podemos ser sinceros assim? Por que é feio se incomodar com as coisas? Isso tudo é fruto de uma imposição de comportamentos que somos obrigados a ter para sermos bem aceitos. Dane-se! Nos incomodamos! E dai? Vamos nos permitir mais a sermos nós mesmos. Essa padronização de pensamentos está nos sufocando, cortando nossas asas!

Apesar de já ter ouvido, lido e até mesmo feito textos criticando esta “realidade” digital e também ter feito textos sobre a felicidade, fico aliviada quando alguém se assume “não feliz” em alguns momentos. E quando eu também me assumo não feliz, provoco o sorriso no outro. Uau! Alguém que me entende! Alguém que vive as mesmas coisas que eu! Alguém não perfeito!!!

E se, a partir de hoje, passássemos a nos identificar por nossos problemas em comum e não, por coisas materiais, pelos mesmos shows, festas, conquistas e méritos? Imagine uma criança que nunca teve acesso a um bom estudo, vendo fotos de outras crianças na escola todo dia? Se você acha que isso vai servir de estímulo a ela, engano seu. Servirá de castigo, de abismo, de sensação de impotência, fraqueza e tristeza. As coisas nos servem de inspiração quando temos um bom suporte ao nosso redor e meio caminho andado. Sejamos francos.

Seria então, o caminho da felicidade, aceitarmos que somos apenas humanos e que temos problemas comuns, aflições comuns e medos comuns? Passaríamos, portanto, a nos cobrarmos menos e, então, sermos livres para aproveitarmos a vida como, de fato, ela é?

Já ouviram dizer ao final de um namoro: “Viva o luto, que logo ele passa, mas ainda assim, viva, ou ele não sairá do seu lado.”? Então, se aceitássemos nossas pequenas frustrações e erros e se a sociedade ao nosso redor ditasse menos as regras do que seria ou não felicidade, com pessoas postando fotos o tempo todo em redes sociais, viajando em cruzeiros lindos, ou usando o dinheiro do ciências sem fronteiras para viajar a Europa toda e só estudar duas matérias ao invés de seis, talvez pudéssemos nos aceitar melhor. O ser humano se compara. Não adianta e nem se trata de inveja. Quando ele vê alguém em situação melhor do que a dele, ele se questiona, sente o fracasso ou, no mínimo, um atraso. Não dá para ser feliz tentando conquistar tudo o que todos possuem de felicidade o tempo inteiro. “Quero aquela barriguinha, quero aquele carro, queria estar viajando, quero aquela bolsa, quero aquele sorriso, quero aquela casa”… É infinito… Aceite.

Talvez fosse mais interessante postarmos no facebook: Gente, que dia… Meu chefe brigou comigo, meu namorado me deu um pé, meu cachorro morreu. E se outras pessoas também compartilhassem dessas experiências comuns e no final, todos conversassem e rissem de tudo isso? De como tudo isso é absolutamente normal?

A troca de boas conversas talvez desse uma base maior para a criação de laços e de umas boas risadas, onde as pessoas se identificariam por algum motivo, ao invés de se sentirem excluídas por não terem uma vida perfeita…

O que não dá é ter o dia “de merda” e chegar em casa e abrir o facebook e ver todos extremamente bem sucedidos e sem problemas. Por mais que tenhamos a consciência de que todos passam por momentos difíceis, não há a troca de experiência. Não existe um aprofundamento de relações. Vendemos imagens de quem não somos para amigos, namorados, família. Para quê?

Esquecendo um pouco das redes sociais, somos engolidos por propagandas de felicidade vindas de todos os lugares, de famílias empurrando carreiras que seriam “bem sucedidas” aos seus filhos…

Não ditemos as regras da felicidade. Acredito que a felicidade se encontre por trás destas regras. Onde existem seres humanos fragilizados e precisando de ajuda (Sim” Todos precisamos de ajuda! Todos somos fracos. E que mal há nisso???), e que podem crescer juntos se apoiando, e não, tentando pisar em cima do outro mostrando como sua vida é melhor que a do outro. Não é. Nunca será. Cada batalha diária é pessoal e intransferível e possui pesos e medidas sentidos pelas pessoas de formas totalmente diferentes.

Não me leve a mal caro leitor, mas seja mais fraco, humanize-se e sinta a aceitação entrar pela janela num amanhecer pleno de felicidade. Quebre as regras, fale mal, grite, exploda! (Com moderação, é claro. Afinal, não precisa bater em ninguém também. Só uma dica…) Deixe a angústia passar, pois assim como a felicidade é passageira, tudo é passageiro. Com maior rotatividade, a felicidade pode voltar mais vezes.

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Domie Lennon
Nasceu em Petrópolis-RJ, mestranda e graduada em Relações Internacionais pela Universidade do Brasil! Tem interesse em tudo que se pode imaginar, até química, física, logaritmo e quadrantes. Sempre adorou escrever e coleciona caixas de textos que escreve desde a infância. Seja sobre poesia da vida cotidiana ou sobre assuntos políticos, filosóficos, antropólogos, científicos, sua vida é de uma forma ou de outra ligada à tentativa de olhar o mundo com mais profundidade do que a correria da rotina nos permite. Nada lhe escapa, dos assuntos cotidianos às condições políticas que acontecem ao redor. O que varia é o horário, a inclinação do olhar ou da cabeça também... Quer falar todas as línguas do mundo... ou quase. Quieta de vez em muito, nada como a introspecção para refletir a vida um pouquinho. Mas também pode fingir ser a pessoa mais extrovertida do mundo se quiser. E engana bem. Da personalidade mais rara do mundo, INFJ com muito prazer!



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