“Panta Rei”: você está vivo!

Na vida tudo se transforma, já dizia um princípio da física, constante da Lei de Conservação de Massas, atribuído a Lavoisier, mas primeiramente publicado por Mikhail Lomonosov. Anteriormente a isso, disse Heráclito: “Panta Rei”, ou, tudo flui, tudo passa. Segundo ele, “é impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio”, afinal, aquelas águas já passaram, o rio de antigamente, certamente, agora é outro.

Assim como mostram a física e a filosofia, também nos mostra a vida. Nada se cria do nada, tudo provém de algo que já existe. Afinal, tudo se renova, se transforma. Como a fênix grega, que morre em um processo de autocombustão para renascer das próprias cinzas, cada vez mais bela e mais forte.

Momentos de dor, frustrações dos nossos planos e o pior: a morte súbita dos sonhos, existem para que a vida possa se renovar, acontecem para que se possa abrir espaço para o que vem adiante. A vida tende a melhorar se a gente der espaço para ela, é uma visão otimista, mas é assim que deve ser. Com o passar do tempo, somos melhores, amadurecidos, fortes e isso nos leva a lugares mais altos. O jovem é imaturo, apressado, inseguro, por essas características, deixa de alcançar coisas melhores, na sua afobação e ânsia atropela a vida. É preciso tropeçar para crescer, é preciso perder para valorizar o que se tem, é preciso viver para ganhar a vida.

Como as religiões em geral, o cristianismo nos apresenta também esta visão. Em Apocalipse, João se defronta com o fim do mundo como conhecemos e vê o surgimento de um novo mundo:

“E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.” Apocalipse 21:1, 4 e 5

Da mesma forma, o renascimento budista, em que sucessivamente a vida se renova por meio de existências consecutivas, aponta a morte (fim), como uma etapa do processo de continuação.

Muitas vezes nos encontramos em meio a dor e a tristeza e não conseguimos ver o horizonte, muitas dessas vezes (quase todas, na verdade), o problema é ínfimo, minúsculo até, mas a nossa frustração é tão grande que não nos permite enxergar que algo precisa morrer para dar lugar ao novo, como a fênix que se vai; não conseguimos compreender que as águas do rio precisam correr como uma saudação – “Panta Rei” –, para que possamos nos banhar em águas limpas e renovadas; nos é ininteligível que as coisas na vida não se criam do vazio, mas que precisam partir de um princípio. Tantas vezes é impossível ouvir de Deus: “Eis que eu faço novas todas as coisas!”.

A mudança é algo que assusta. Estar preso aos velhos padrões e hábitos é confortável, entregar-se à preguiça de vivenciar o novo é muito seguro. No entanto, a mudança vem para o bem, a mudança é boa. Renovar a vida, começar de novo: é o princípio da esperança. E quem não vive mais com esperança, morreu e nem percebeu.

Sair da zona de conforto é necessário para dar espaço à novidade, destruir o que se tem e reconstruir tudo faz parte do processo de crescimento pessoal e é preciso maturidade para encarar a vida.

Uma coisa que me fascina é observar aquelas pessoas que perderam coisas que a maioria de nós tem e sequer agradece por elas. Eu tenho uma amiga, que sofreu um acidente de carro aos 23 anos de idade e ficou numa cadeira de rodas, ela é a alegria personificada. Eu sei que ela tem os momentos de luta e tristeza dela. Hoje ela mal se movimenta do pescoço para baixo, antes ela cavalgava, dançava sertanejo e zanzava de um lado para o outro. Contudo, se tem uma coisa que ela nunca tira do rosto, é o sorriso. Ela poderia viver triste, com certeza ela se sente triste várias vezes, mas ela escolheu sorrir, foi essa zona de conforto que ela rompeu. Essa dolorosa zona de conforto que ela rompe todos os dias quando abre os olhos. Observar estas pessoas, que possuem estes problemas, me arrebata, pois elas sabem como encarar tudo com uma fé, que eu nunca consegui compreender, elas entendem melhor que ninguém a expressão “Panta Rei”. E não, elas não foram assim sempre. Elas aprenderam a ser. Elas escolheram. Deixar fluir é uma escolha.

Eu proponho um exercício. Ao menos um minuto do seu dia, pare diante do espelho e diga para si mesmo: “Panta Rei”! Eu o convido a olhar para o seu próprio eu, uma vez por dia, e dizer que tudo flui, que nada é estático e que tudo deve seguir: suas dores, seus sentimentos (bons e ruins), as pessoas, o amor, as doenças, as mazelas, os problemas, o sucesso, o fracasso. Tudo deve seguir, pois é este o movimento natural de tudo que faz parte do estar vivo. Desapegue-se de tudo e se permita estar vivo.

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Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367



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